Da idade

Quando comecei a trabalhar, em 2001, lembro-me de um ver um colega director de Arte que se estava a “reformar”. Porque estava cansado, porque (certamente) já tinha ganho dinheiro que chegasse, porque nunca se tinha adaptado muito bem aos computadores (e ele era dos que se tinham adaptado; outros mais velhos tinham-se reformado tout court). E enfim, porque tinha 40 anos e estava velho.

Quase duas décadas depois – e com, lá está, os mesmos 40 –, não é a primeira vez que dou por mim a pensar nesse director de Arte. E ainda que não esteja assim tão cansado, que não tenha dinheiro que chegue (nem sequer que sobre) e que o digital não me faça confusão alguma (menos o twitter, mas isso sou eu a embirrar), já dei por mim a ser questionado – e, mais tarde, a questionar-me – se não estaria a ficar… lá está, velho.

Que não estou, para que conste. Mas já lá chegaremos. Devagar, que a idade não perdoa (desculpem, não resisti a fazer o trocadilho).

Há não muitos anos, estava eu a apresentar uma proposta para uma marca muita moderna, que só falava com jovens muita modernos, disseram-me que “os miúdos de hoje já não gostam disto” – entenda-se, o trabalho que eu estava a apresentar -, “eles agora gostam é daquilo” – algo que, a ver pelo tom, eu já não tinha idade para perceber ou conceber. Como quem diz, tu estás velho, não percebes.

É claro que na altura não liguei puto ao subtexto, até porque a) tinha 35 anos b) o cliente em causa era mais velho do que eu e c) as pessoas que, mais tarde, ficaram a trabalhar a conta (eu saí da agência, a conta saiu da agência, e mais tarde até a agência saiu da agência), não só eram mais velhas do que eu, como eram umas amigalhaças do cliente mais velho do que eu.

O que faz parte, acrescente-se, que eu sou todo pró-trabalhar com amigalhaços. Assim se assuma que o estamos a fazer e não se inventem desculpas para o justificar. Mas estou a divagar.

Mais tarde, porque não sou totalmente estúpido e tendo a pensar nas coisas, dei por mim a pensar nisso. E cheguei à conclusão que velho não estava, mas farto, certamente. E era dele(s).

E sabem uma coisa? Estar farto é óptimo. É assim uma espécie de bardamerda altamente rejuvenescedora.

Aposto que até tira rugas, se ficarmos mesmo fartinhos.

Não, o problema, vim a perceber desde então para cá, está em estarmos fartos, mas acharmos que não (estamos).

Porque nessa altura, em vez de dizermos umas asneiras e seguirmos em frente para outros clientes que queiram trabalhar connosco, passamos a vida a tentar fazer anúncios que explicam aos adolescentes que eles não estão a pensar como deviam, a resmungar que o twitter não faz sentido e devia ter mais caracteres, a lamentar para com os nossos botões que os clientes não percebem nada de rádio e a acreditar que o long copy, afinal de contas, está de boa saúde e recomenda-se.

Altura em que, em vez de fartos, começamos a ficar velhos. E chatos como o raio, diga-se de passagem.

Daí a passar os dias a dizer que já não se fazem anúncios de imprensa como antigamente (e anúncios de rádio como antigamente, anúncios de televisão como antigamente, que já não há orçamentos como antigamente, e que bom, mesmo bom, era antigamente) é um instante. E em vez de anúncios passamos a fazer fretes.

Que, para quem já foi publicitário e ganhou a vida a ter ideias, é uma depressão do caraças, sejamos sinceros.

Não estou com isto a querer dizer que a malta se devia reformar.

Mas antes que deviam deixar de fazer tantos fretes, dizer uma asneirita de vez em quando e mandar uns pares (e uns ímpares) para aquele sítio.

Até porque já têm (mais do que) idade para isso.

Por Tiago Viegas
Partner da The Hotel

tiago.viegas@thehotel.pt

Artigo publicado na edição nº267 da revista Marketeer de Outubro de 2018.

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