Durante os primeiros anos da corrida à inteligência artificial (IA), os grandes vencedores pareciam ser apenas as empresas tecnológicas responsáveis pelos chips, pela cloud ou pelos modelos de IA generativa. Mas a mais recente época de apresentação de resultados das maiores multinacionais revela uma mudança de paradigma: a IA está rapidamente a tornar-se uma ferramenta transversal à economia, ajudando empresas de setores tão distintos como bebidas, restauração, turismo, pagamentos ou automóvel a ganhar eficiência, reduzir custos e criar novas oportunidades de crescimento, mostra uma análise da Freedom24.
Mais do que alterar o comportamento dos consumidores, a tecnologia está a transformar os bastidores das organizações. Entre os exemplos mais evidentes está a Coca-Cola. A gigante das bebidas terminou o segundo trimestre com receitas de 13,4 mil milhões de dólares, um crescimento de 7%, impulsionado por mercados como Estados Unidos, Índia, China e Brasil.
Mas o destaque vai para a estratégia tecnológica. A empresa está a desenvolver um sistema global de marketing personalizado suportado por inteligência artificial. Durante o Mundial de Futebol recolheu mais de 25 milhões de perfis próprios de consumidores, que servirão para criar campanhas mais segmentadas e acelerar o desenvolvimento de novos produtos através da análise de dados.
A IA deixa assim de ser apenas uma ferramenta operacional para passar também a desempenhar um papel central na estratégia de marketing. Mas também a cadeia norte-americana Chipotle está a integrar inteligência artificial no seu modelo de negócio. A empresa utiliza dados provenientes do programa de fidelização e dos canais digitais para prever a procura, otimizar a operação dos restaurantes e personalizar ofertas para diferentes perfis de clientes.
A estratégia parece dar resultados. As receitas cresceram 9,3%, para 3,3 mil milhões de dólares, enquanto as vendas digitais representam já quase 40% do negócio.
Já no turismo, a Royal Caribbean segue um caminho semelhante. A companhia de cruzeiros pretende utilizar plataformas tecnológicas para personalizar a experiência dos passageiros, aumentar o consumo a bordo e incentivar novas reservas. Os resultados refletem um setor que continua em forte crescimento: receitas de 4,8 mil milhões de dólares, ocupação média superior a 110% e um novo máximo histórico de 2,4 milhões de passageiros transportados num único trimestre.
É também no setor financeiro que a transformação tecnológica se torna particularmente evidente. Na Mastercard, a divisão dedicada a serviços de valor acrescentado – que inclui cibersegurança, prevenção da fraude, análise de dados e identidade digital – cresceu 20%, acima do ritmo do negócio tradicional de pagamentos. A empresa está também a desenvolver soluções de pagamentos baseadas em IA, preparando aquilo que considera ser a próxima geração de experiências de compra.
A Visa segue uma estratégia semelhante, apostando na inteligência artificial para reforçar os pagamentos digitais, os serviços empresariais e a deteção de fraude. Os resultados demonstram igualmente a robustez da economia global. Tanto Visa como Mastercard registaram crescimentos de 14% nas receitas e aumentos de dois dígitos no volume de pagamentos processados.
A indústria automóvel vive igualmente uma transformação profunda. Na Tesla, a inteligência artificial tornou-se um dos principais pilares de investimento. A empresa continua a expandir o sistema Full Self-Driving, a rede Robotaxi e o desenvolvimento do robô humanoide Optimus, ao mesmo tempo que reforça a sua infraestrutura própria de IA.
Já fabricantes tradicionais como Ford e Stellantis estão a acelerar investimentos em software, serviços digitais e inteligência artificial, encarando estas tecnologias como determinantes para a competitividade futura.
A próxima vaga da IA pode estar fora das Big Tech
Se há dois anos a narrativa da inteligência artificial estava concentrada em fabricantes de chips como a Nvidia ou em gigantes da cloud como Microsoft e Google, os resultados mais recentes sugerem uma nova fase.
A IA está a tornar-se uma infraestrutura transversal, utilizada para personalizar campanhas de marketing, prever padrões de consumo, otimizar cadeias de abastecimento, combater fraude, melhorar a experiência do cliente ou acelerar o desenvolvimento de novos produtos.
Para as marcas, a principal oportunidade parece já não estar apenas em experimentar ferramentas de IA generativa, mas em integrá-las de forma estrutural nos processos de negócio. E é precisamente essa capacidade de transformar ganhos de eficiência em crescimento sustentável que poderá distinguir as empresas mais competitivas nos próximos anos.












