“Curadoria, conceito, experiência e comunicação constroem (e reforçam) o valor de marca do UMAMI”, Paulo Barata, Amuse Bouche

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Sandra M. Pinto
05/05/2026
10:00
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Sandra M. Pinto
05/05/2026
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Num momento em que a gastronomia deixa de ser apenas alimentação para se afirmar como experiência cultural, o UMAMI surge em Lisboa como um projeto que desafia categorias e expetativas. Primeiro festival plant-based em Portugal sem rótulos, propõe uma leitura mais livre da cozinha vegetal, afastando-se de narrativas tradicionais associadas ao vegetarianismo e ao veganismo. À frente do projeto está Paulo Barata, curador da Amuse Bouche, que defende uma abordagem centrada no sabor, na curadoria e na experiência, mais do que em definições ou tendências. O festival nasce de um trabalho de construção prolongado e de uma vontade clara de reposicionar a gastronomia vegetal no espaço público, tornando-a acessível a diferentes públicos e perfis de consumo.

Por Sandra M. Pinto

O UMAMI resulta também de uma colaboração entre a Amuse Bouche e a New Sheet, cruzando a experiência gastronómica com uma leitura mais contemporânea da cultura urbana. O resultado é um evento que junta chefs de referência, projetos independentes e cozinhas internacionais num mesmo ecossistema, instalado no Jardim do Torel, em Lisboa. Nesta entrevista, Paulo Barata explica o racional estratégico por detrás do conceito, a importância da curadoria na construção do festival e a forma como o UMAMI procura transformar a gastronomia vegetal num território de experiência, prazer e descoberta, mais do que de restrição ou segmentação.

O UMAMI apresenta-se como o primeiro festival plant-based em Portugal sem rótulos. Qual foi o racional estratégico por detrás da criação de um conceito tão pouco convencional no mercado gastronómico?
A verdade é que isto já andava a fermentar há muito tempo. Não é uma ideia de agora, nem a resposta a uma tendência. Só sentimos que este era o momento certo para a fazer acontecer: com maturidade, com contexto e com as pessoas certas. E depois havia uma coisa que nos interessava mesmo: tirar a comida vegetal daquele lugar meio “formatado”. Sem rótulos, sem discurso pesado. Só sabor, criatividade e liberdade.

De que forma é que a Amuse Bouche procurou reposicionar a gastronomia vegetal, transformando-a de nicho em experiência mainstream?
Fazendo aquilo que sabemos fazer melhor: curadoria com critério. Quando juntas projetos fortes, de todo o país, dos mais reconhecidos aos mais escondidos, a conversa muda automaticamente. Começamos em Braga, com o Águas de Bacalhau, que tem uma forte componente plant-based e uma abordagem muito própria. Descemos depois até Leça da Palmeira, com o Fava Tonka e o Seiva, dois dos projetos plant-based mais sólidos do país. Depois, naturalmente, temos vários projetos de Lisboa, já lá iremos. Continuamos para o Alentejo com o João Narigueta, que acaba de reabrir o Híbrido numa versão 100% vegetariana — o primeiro do género na região. E seguimos até ao Algarve, com projetos como o Loki, do João Marreiros, quase um manifesto: seis lugares, produto totalmente local, pegada mínima. Quando tens este tipo de diversidade e qualidade, o tema deixa de ser nicho e passa a ser relevante.

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O festival recusa categorizações tradicionais como vegetariano ou vegan. Do ponto de vista de marca, que valor acrescenta esta abordagem mais aberta ao posicionamento do evento?
Tira peso. As palavras “vegetariano” ou “vegan” ainda vêm carregadas de preconceitos. Nós preferimos não entrar por aí. As pessoas chegam, provam, gostam, e só depois, se quiserem, é que pensam no que estão a comer. O UMAMI é provocador, desafia regras e ideias feitas, muda o jogo, mantém tudo em aberto.

Como se constrói uma proposta de valor capaz de juntar chefs Michelin, projetos independentes e cozinhas internacionais num mesmo ecossistema de experiência?
Com uma ideia clara do que se quer dizer. Aqui, o ponto comum não é o formato nem o estatuto: é a abordagem à cozinha. Tens o Encanto, com o chef Diogo Formiga, que é o único estrela Michelin 100% vegetal em Portugal, ao lado de projetos pequenos e super radicais. Tens o Rafael Santos, que esteve na base de um projeto importante como o Cera, no Algarve. E depois tens cozinhas do mundo — libanesa, georgiana, síria — que naturalmente já trabalham muito o vegetal, como o Touta, o Karater ou o Mezze, que ainda por cima tem um impacto social muito forte. Isto não é uma mistura aleatória, é um ecossistema pensado.

O UMAMI resulta da colaboração entre a Amuse Bouche e a New Sheet. Como é que esta parceria influenciou o desenvolvimento da marca e do conceito criativo do festival?
Foi um bom choque de energias. Nós trazemos a bagagem da gastronomia e da construção de experiências, já andamos nisto há algum tempo. A New Sheet traz uma leitura mais contemporânea, mais urbana. O UMAMI ganha precisamente aí, nesse encontro: não é só um festival de comida, é um objeto cultural mais amplo.

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De que forma pretendem contrariar os preconceitos associados à alimentação plant-based e reposicionar esta categoria como uma escolha de lifestyle e não de restrição?
Outra vez, sem grandes teorias: com comida boa, com pratos surpreendentes e deliciosos. Se alguém sai de lá a pensar “ok, isto afinal é incrível”, já mudámos alguma coisa. E depois há o contexto todo: o ambiente, a música, o espaço. Não é um sítio de restrição, é um sítio de prazer.

O Jardim do Torel é o palco escolhido para o evento. Que importância tem a escolha do espaço na construção da experiência de marca?
É tudo. Nós gostamos de trabalhar fora do óbvio. Já o fizemos com o Foodtopia, no Jardim Tropical de Belém — na altura foi mágico, inovador em toda a linha, e acabou por ser um dos festivais mais marcantes que fizemos. O Torel tem essa mesma lógica: é um jardim no meio da cidade, mais escondido, com uma energia muito própria. Ajuda a tirar o festival do formato clássico e a levá-lo para um lado mais sensorial, mais livre.

O UMAMI dirige-se a públicos muito distintos, de foodies a consumidores mais curiosos. Como é que se equilibra esta diversidade sem diluir a identidade do festival?
Sobretudo, não pensamos o UMAMI por segmentos. É mesmo para todos, e essa é uma das mensagens mais importantes do festival. Não é só para quem já gosta de vegetais, ou para quem é vegetariano ou vegan. É também para quem acha que só gosta de bifes. A identidade tem que ser forte, e depois cada pessoa entra por onde quiser. O objetivo é simples: pôr toda a gente à mesma mesa, sem rótulos, sem barreiras, só pelo prazer de comer bem.

O conceito de “umami” está ligado ao sabor e à intensidade gastronómica. Como é que esse conceito foi traduzido numa narrativa de marca?
O umami é, acima de tudo, sabor no seu ponto máximo: profundidade, intensidade, prazer. E uma das coisas que quisemos mostrar é precisamente o potencial incrível dos vegetais nesse campo: a complexidade, a riqueza, o nível de deliciosidade que conseguem atingir quando são bem trabalhados.
A partir daí, levámos essa ideia para tudo. Para a comida, claro, mas também para a forma como o festival se apresenta — na imagem, na linguagem, na comunicação. Não é neutro, não é tímido. Tem carácter.

Este projeto pode marcar uma nova abordagem à gastronomia urbana em Lisboa. O UMAMI foi desenhado como um evento isolado ou como uma plataforma de crescimento futuro?
O UMAMI não é uma aventura, de todo. É um projeto que queremos construir com tempo. Temos ambição de crescer, de trazer mais gente, mais projetos, eventualmente mais mundo para Lisboa. Mas primeiro queremos que esta base fique sólida, que faça sentido, que crie memória.
Se isso acontecer, as coisas depois evoluem naturalmente.

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O UMAMI tem uma identidade visual e conceptual muito vincada. Como é que se constrói uma marca de festival gastronómico simultaneamente disruptiva, urbana e comercialmente sustentável?
Com equilíbrio. Ser disruptivo não pode ser só uma pose, tem que haver consistência por trás. Há uma linguagem forte, sim, mas há também um trabalho muito pragmático: parceiros, produção, sustentabilidade do projeto. Uma coisa não vive sem a outra.

Num mercado cada vez mais competitivo em eventos e experiências, que papel teve o storytelling e a estratégia de comunicação na diferenciação do UMAMI enquanto ativo de marca?
No nosso caso, não é só storytelling, de todo. A comunicação não inventa nada, não exagera, não embeleza. Limita-se a expor o que o festival realmente é. E isso hoje é raro. Há muita coisa bem contada que depois não corresponde. Aqui é ao contrário: há uma base sólida — curadoria, conceito, experiência — e a comunicação vem amplificar isso, dar-lhe forma. E é precisamente essa coerência, essa falta de filtro, que constrói valor de marca. Quando aquilo que se diz bate certo com aquilo que se vive, ganhas credibilidade, e é isso que transforma o UMAMI num ativo com força para crescer.




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