Curadoria algorítmica: quem decide o que vemos (e o que compramos)?

Opinião
Marketeer
12/11/2025
20:02
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20:02


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Opinião de Magda Santos, SEO specialist e criadora de conteúdo otimizado @ MS Digital Concept e Docente convidada @ IPLUSO

Há um momento curioso no nosso quotidiano digital que passa despercebido. Acreditamos que escolhemos o que vemos, o que seguimos, o que nos interessa e até o que compramos. Mas na verdade, antes de tomarmos qualquer decisão, houve um algoritmo que já decidiu por nós.

O que nos aparece no feed, o que surge na pesquisa, o que é recomendado, promovido ou ocultado não é aleatório. Nada é neutro. Até porque o digital não é um espaço caótico. É um ecossistema profundamente curado, só que essa curadoria é invisível. E é aqui que o marketing, tal como o conhecemos, se redefine.

A mediação algorítmica do consumo

Quando pesquisamos no Google, não estamos a aceder a resultados do mundo. Estamos a ver resultados filtrados pela relevância que o algoritmo interpreta como sendo mais provável que nos satisfaça (e mais provável que retenha a nossa atenção).

O mesmo acontece nas redes sociais. Não vemos as publicações das contas que seguimos. Vemos o que o algoritmo acredita que nos irá manter a deslizar, a clicar e a interagir. O scroll infinito não é um acidente, mas sim um modelo de negócio.

Nos marketplaces, então, a influência é ainda mais direta. Os produtos não são organizados por qualidade, utilidade ou preço. São organizados por probabilidade de conversão. Aquilo que aparece na primeira linha resulta de uma série de sinais: popularidade, histórico de cliques, campanhas de promoção paga, taxas de retorno, reputação do vendedor, entre outros.

O que interpretamos como a escolha de um produto é, na verdade, a decisão dentro de um conjunto de opções que já foi selecionado antes de chegarmos lá.

A ilusão da escolha

A sensação de autonomia permanece, mas é cuidadosamente encenada. O digital oferece abundância, porém condiciona o acesso a essa mesma abundância através de múltiplas camadas de intermediação algorítmica.

Podemos pensar que estamos a pesquisar o melhor hotel, o melhor telemóvel, o melhor suplemento alimentar. Na realidade, na maior parte das vezes, navegamos apenas pela superfície daquilo que os algoritmos decidiram tornar visível. E isto altera profundamente o comportamento de consumo, pois não decidimos com base no que existe, mas sim com base no que nos é apresentado.

O impacto no marketing: estratégia para algoritmos, não para pessoas

As marcas já perceberam isto há muito tempo. Não se comunica apenas para o público. Comunica-se para o algoritmo que vai decidir se esse público vai ver a mensagem.

No Google, otimizamos conteúdo não apenas para responder a perguntas, mas para sermos entendidos enquanto entidade temática consistente. Nas redes sociais, criamos conteúdos pensados para retenção e não necessariamente para profundidade. Ou seja, o que importa não é só o que se diz, é o tempo que se mantém alguém a ver.

Nos marketplaces, investe-se em visibilidade paga, gestão de reputação e otimização contínua de fichas de produto para subir no ranking, porque estar na página dois é o mesmo que não existir.

Portanto, marketing, hoje, é negociação permanente com sistemas automáticos que não nos veem como marca, mas como probabilidade.

O que isto significa para o futuro das marcas

Se o algoritmo decide o que vemos, então também molda o que desejamos. E se molda o que desejamos, molda o próprio mercado. As marcas deixam de concorrer apenas entre si.
A concorrência ocorre, também, dentro do algoritmo e a visibilidade é uma forma de poder.

●     Ganha quem conhece as regras.

●     Ganha quem compreende a lógica dos sistemas.

●     Ganha quem constrói confiança algorítmica a longo prazo.

Mas há algo mais importante:

●     Não podemos confundir visibilidade com impacto.

●     Não podemos confundir recomendação algorítmica com autoridade.

●     Não podemos confundir facilidade de descoberta com relevância real.

O papel da consciência crítica

Enquanto profissionais, temos responsabilidade técnica, editorial, social e ética. Podemos alinhar estratégias com algoritmos. E devemos.

No entanto, não podemos entregar às plataformas o direito de definir o que é importante.

Precisamos de voltar à intenção de criar mensagens com propósito, de construir valor que sobreviva para lá do feed.

Até porque a pergunta não é apenas “por que é que isto me está a aparecer?”. A verdadeira pergunta é “quem decide o que pode existir o suficiente para aparecer?”

E essa resposta está escondida num algoritmo que não vemos, mas que dita o ritmo do que chamamos mercado, atenção e desejo. A influência algorítmica é invisível, mas o impacto é profundamente tangível e cabe-nos a nós tornar esse processo consciente, estratégico e, acima de tudo, humano.




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