A confiança dos líderes dos media nas perspetivas do jornalismo continua em queda. Apenas 38% dos responsáveis do sector dizem estar confiantes quanto ao futuro da atividade este ano, menos 22 pontos percentuais do que há quatro anos, segundo o mais recente relatório anual do Reuters Institute sobre tendências no jornalismo, media e tecnologia.
O estudo, produzido em parceria com a Universidade de Oxford e baseado num inquérito internacional a líderes da indústria, aponta várias pressões estruturais que afetam o sector, incluindo o impacto da inteligência artificial (IA), a disseminação de narrativas de “fake news”, a diminuição da confiança do público nas notícias e a crescente concorrência de criadores de conteúdos e influenciadores.
O relatório alerta para a erosão da confiança no jornalismo como uma das tendências mais preocupantes. A proliferação de desinformação, o uso de IA na produção e distribuição de conteúdos e a normalização do termo “fake news”, inclusive por líderes políticos, estão a fragilizar a credibilidade das notícias. Segundo o estudo, uma quebra acentuada da confiança poderá levar à redução significativa do investimento publicitário.
Apesar deste cenário, o relatório nota que, no Reino Unido, os consumidores continuam a reconhecer o valor do jornalismo, sobretudo num contexto global marcado pela instabilidade e pela incerteza.
Embora 53% dos líderes dos media se mostrem confiantes quanto às perspetivas dos seus negócios cresce a preocupação com a perda de receitas associada à pesquisa online alimentada por IA.
Os editores esperam que o tráfego proveniente dos motores de busca diminua mais de 40% nos próximos três anos. Nos últimos três anos, o tráfego de referência para sites de notícias já caiu 43% no Facebook e 46% na plataforma X (antigo Twitter).
O sector está dividido quanto aos resultados da utilização de IA nas redações: 44% consideram os resultados “promissores”, enquanto 42% classificam o impacto como “limitado”.
As subscrições e os modelos de adesão continuam a ser a principal aposta dos editores para gerar receitas (76%), à frente da publicidade display (68%) e da publicidade nativa (64%). Os eventos digitais e presenciais ganham também relevância, sendo apontados por 54% dos inquiridos como uma área estratégica de crescimento.
Cerca de 20% dos editores acreditam que poderão gerar receitas substanciais através do licenciamento de conteúdos para chatbots e plataformas baseadas em IA.
A concorrência dos criadores de conteúdos é outra preocupação central: 70% dos líderes dos media receiam que estes estejam a captar o tempo e a atenção do público que antes consumia notícias tradicionais, enquanto 39% manifestam preocupação com a perda de talento para estas plataformas.
Como resposta, 76% dos editores afirmam que vão incentivar os seus jornalistas a adotar práticas mais próximas das dos criadores de conteúdos, e metade admite parcerias com influenciadores para distribuição de notícias.
O investimento em vídeo surge como prioridade estratégica para 79% dos inquiridos, enquanto 71% planeiam expandir formatos de áudio. O YouTube lidera as apostas para 2026, com uma avaliação líquida muito positiva, seguido do TikTok e do Instagram.
Segundo o Reuters Institute, a maioria dos executivos acredita que o sucesso futuro do jornalismo passa por uma maior diferenciação editorial, mesmo que isso implique perder alcance e reduzir a cobertura de notícias generalistas.
Um responsável digital do Wall Street Journal sublinha que a melhor resposta do jornalismo é “reforçar aquilo que nos torna valiosos e únicos”, destacando investigações originais, histórias humanas, reportagem no terreno, construção de comunidades e eventos ao vivo como formas de combater a crescente presença de conteúdos gerados por inteligência artificial.
O estudo baseia-se numa amostra estratégica de 280 líderes digitais de 51 países e territórios.
Fonte: Reuters Institute











