Entre 350 hectares de vinhas e 550 de olival, a Casa Relvas constrói uma história de autenticidade onde a sustentabilidade é prática diária.
No coração do Alentejo, onde o sol modela a paisagem e o tempo parece seguir um ritmo próprio, a Casa Relvas escreve a sua história entre vinha e olival. Alexandre Relvas, co-CEO desta empresa familiar, traça um retrato de uma marca que soube crescer sem perder a essência, onde a sustentabilidade não é um slogan mas uma prática diária, e onde a inovação passa também por olhar para trás e resgatar o melhor das tradições regionais.
A identidade da Casa Relvas constrói-se entre 350 hectares de vinhas e 550 de olival constói uma história de autenticidade é practica diária. É nesta diversidade territorial que Alexandre Relvas encontra a força distintiva do projecto: em cada sub-região, a empresa procura extrair a máxima expressão dos terroirs, produzindo vinhos destinados a diferentes momentos de consumo. Esta abordagem reflecte uma filosofia que valoriza o carácter único de cada parcela de terra, respeitando as suas particularidades e potenciando aquilo que cada solo tem para oferecer.
As castas autóctones ocupam lugar de destaque nesta estratégia, representando cerca de 80% da área de vinha. Contudo, Alexandre Relvas afirma que «não temos qualquer preconceito na plantação de castas internacionais, desde que bem-adaptadas ao nosso clima e solos». Esta abertura traduz-se numa produção que, ao longo dos anos, tem privilegiado vinhos fáceis de entender para o consumidor, mas sempre com um forte sentido de lugar. É este equilíbrio entre acessibilidade e identidade territorial que permite à Casa Relvas dialogar com diferentes públicos sem comprometer a autenticidade que a define.
A sustentabilidade está presente em cada etapa da operação, do campo ao produto final. Alexandre Relvas enumera os principais focos das operações agrícolas: a melhoria dos solos, o uso eficiente da água e a promoção da biodiversidade. Não se trata de medidas isoladas ou de uma agenda imposta de fora para dentro, mas de uma forma integrada de gerir o território. O responsável revela que este compromisso atravessa toda a cadeia produtiva, desde as decisões tomadas nas vinhas e nos olivais até ao produto que chega ao consumidor.
Quando questionado sobre o equilíbrio entre herança familiar e inovação, Alexandre Relvas oferece uma perspectiva que desafia a dicotomia aparente entre tradição e modernidade. Para o co-CEO da Casa Relvas, «uma grande parte da inovação é olhar para trás e ver quais eram, no passado, as tradições na região e adaptá-las aos tempos de hoje». Esta visão reconhece que o consumidor contemporâneo aprecia não apenas novidades, mas produtos autênticos que remetem para aquilo que é mais típico em cada região. É neste diálogo entre passado e presente que a Casa Relvas encontra o seu caminho de diferenciação.
MERCADOS GLOBAIS E ESTRATÉGIAS LOCAIS
O posicionamento internacional da Casa Relvas reflecte uma estratégia cuidadosamente adaptada a cada marca e mercado. O Brasil, a Suécia e a Bélgica são os principais destinos de exportação, mas Alexandre Relvas não esquece a importância do mercado português, que continua a representar 30% das vendas. Esta presença significativa no mercado doméstico é um indicador da aceitação e relevância da marca junto dos consumidores nacionais.
A abordagem comercial varia consoante o posicionamento de cada gama de produtos. Nas marcas de volume, a Casa Relvas procura estar o mais próximo possível do consumidor final, trabalhando directamente com cadeias de supermercados e lojas especializadas. Já nas marcas premium, a estratégia passa por identificar parceiros que trabalhem o posicionamento em lojas especializadas e restaurantes, ambientes onde o consumidor está mais receptivo a explorar vinhos com maior complexidade e história.
O olival tornou-se, entretanto, a principal cultura da Casa Relvas, com 550 hectares distribuídos também por várias regiões alentejanas. Foi uma evolução natural que levou a empresa a engarrafar azeite e a desenvolver novos canais de distribuição. Hoje, o azeite embalado representa 10% das vendas da Casa Relvas, um número que demonstra o peso crescente desta linha de produtos no portefólio global da marca. Alexandre Relvas explica que esta diversificação foi um processo orgânico, surgido da própria actividade agrícola da empresa e da percepção de que havia potencial para valorizar também este produto junto dos consumidores.
O enoturismo tem sido outra aposta forte, com o turismo a registar um crescimento significativo. O objectivo, segundo Alexandre Relvas, passa sempre por adaptar a experiência ao nível de conhecimento de cada visitante, oferecendo experiências únicas e enquadradas nos interesses de quem visita a propriedade. «Tentamos que quem nos visita se transforme num embaixador da nossa marca», afirma, sublinhando a importância destes encontros presenciais na construção de uma relação emocional com o território e com os produtos. O evento “Um Dia em São Miguel” é um dos momentos-chave nesta estratégia, reforçando a ligação entre a marca e o seu público.
COMUNICAÇÃO DIGITAL E DESAFIOS DO MERCADO
As redes sociais assumem hoje um peso enorme na forma como a Casa Relvas comunica com o seu público. Alexandre Relvas destaca que a empresa procura, através destes canais, dar a conhecer o dia-a-dia da propriedade «de uma forma directa e autêntica».
Esta aposta na transparência e na proximidade ref lecte a compreensão de que os públicos mais jovens e diversificados valorizam não apenas o produto final, mas também a história, os processos e as pessoas por trás da marca.
Quanto às certificações e práticas responsáveis, Alexandre Relvas adopta uma posição pragmática. Reconhece que estas certificações vêm, tal como o nome indica, certificar as práticas implementadas na gestão da empresa, funcionando como uma segurança para os clientes. Contudo, discorda que sejam um factor decisivo para o consumidor, sugerindo que, embora importantes, não são o elemento central na decisão de compra.
O mercado de vinhos atravessa, de acordo com Alexandre Relvas, um momento complicado. É um mercado «muito conservador e em quebra», onde os consumidores tendem a consumir menos vezes, mas procuram produtos de maior qualidade. Esta tendência obriga as empresas do sector a repensar estratégias e a focar-se na criação de valor. Já o mercado do azeite apresenta-se muito competitivo, com consumidores sensíveis ao preço, embora Alexandre Relvas identifique um sentimento crescente de apetência por azeites mais premium e com mais sentido de lugar.
Gerir uma marca que cruza produção agrícola, exportação e experiências turísticas pode trazer alguma complexidade. Para Alexandre Relvas, o maior desafio de uma empresa está «nos recursos humanos e na retenção de talentos». Esta resposta directa revela a consciência de que, por mais avançadas que sejam as técnicas agrícolas ou as estratégias de marketing, são as pessoas que fazem a diferença numa organização. Atrair, formar e manter equipas qualificadas e motivadas é, na visão do co-CEO, o verdadeiro factor crítico de sucesso nas organizações.
Olhando para o futuro, Alexandre Relvas recusa fazer grandes anúncios ou promessas grandiosas. Prefere guiar-se por uma máxima que define a filosofia da Casa Relvas: «O caminho faz-se caminhando.» A inovação está sempre presente no dia-a-dia, numa procura constante por melhorar os métodos de produção utilizando menos recursos. A sustentabilidade é encarada como «um caminho nunca acabado», em que todos os anos surgem novos desafios que empurram a empresa para ir mais além.
Em termos de afirmação internacional, a estratégia passa por dar continuidade ao trabalho desenvolvido nos últimos 20 anos, levando ao consumidor «vinhos e azeites de qualidade superior, a preços justos e adaptados a cada momento da vida», de acordo com Alexandre Relvas. Esta é uma declaração de intenções que resume bem a ambição da Casa Relvas: não se trata apenas de crescer por crescer, mas de manter a coerência entre aquilo que se produz, como se produz e para quem se produz.
A Casa Relvas continua assim a afirmar-se como um projecto enraizado no Alentejo, mas com uma visão que ultrapassa fronteiras. Entre a vinha e o olival, entre a tradição e a inovação, entre o local e o global, esta empresa familiar constrói o seu caminho com a paciência de quem sabe que os melhores frutos exigem tempo, trabalho e respeito pela terra que os dá.
Este artigo faz parte do Caderno Especial “Vinhos, azeites e bebidas espirituosas”, publicado na edição de Outubro (n.º 351) da Marketeer.












