Basílio Horta: “Há empresas com graves dificuldades”

basilio2Basílio Horta, presidente da AICEP, tem sido das vozes mais críticas à dificuldade de apoios que as empresas portuguesas sentem no momento de olhar para a exportação. Agora, e mais do que nunca, diz-se apreensivo.

Em que medida a actual situação política e económica de Portugal está a afectar (ou pode vir a afectar) o desempenho das marcas/empresas portuguesas nos mercados externos onde estão presentes?

Neste momento ainda se mantém a tendência de crescimento das exportações portuguesas, apesar da crise severa que está a afectar a generalidade dos mercados e a economia nacional, que está a ser asfixiada pelas dificuldades de financiamento, como é sabido. As nossas exportações, segundo os dados conhecidos referentes ao mês de Janeiro, aumentaram cerca 19,2 por cento. Entretanto, o índice do volume de negócios para o mercado externo na indústria em relação a Fevereiro registou uma variação positiva homóloga de 21,8, o que constitui um bom indicador da manutenção do crescimento das exportações. Trata-se de um comportamento que, na conjuntura financeira e política complicada que estamos a atravessar, patenteia a qualidade e a combatividade do nosso tecido empresarial exportador. Revela a solidez, o prestígio e a competência dos nossos produtos e das nossas marcas nos mercados internacionais.

Se o financiamento à economia tiver um nível adequado, esta tendência de crescimento poder-se-á manter. Porém, a falha no financiamento terá como efeito a inversão desta tendência, com resultados extremamente negativos a nível económico e social, tendo em conta que actualmente são as exportações o principal alicerce do crescimento e do emprego.

Considera que a imagem das marcas portuguesas no exterior pode sair afectada da actual crise?

Não creio que os mercados, orientados por comportamentos pragmáticos, alterem a sua percepção das qualidades intrínsecas dos produtos e serviços nacionais e a imagem que deles se projecta através da marca. Pode haver outros factores a condicionarem a situação das empresas portuguesas nos mercados internacionais, como as reconhecidas dificuldades em matéria de acesso a financiamentos e a degradação da própria imagem externa de Portugal.

E tem conhecimento do caso de alguma empresa em particular?

Temos conhecimento de empresas que estão a enfrentar graves dificuldades em termos de acesso a financiamento e também em relação ao comportamento de alguns mercados em que actuavam, quer devido à crise financeira, quer devido a alterações geopolíticas que são conhecidas. Mas, por enquanto, não tem a ver com quebras de confiança relativamente ao reconhecimento da competência e qualidade empresarial, derivados da situação política e financeira do País.

Há algum sector que possa ser particularmente afectado por este contexto?

Os sectores em que as dificuldades de financiamento prejudiquem a produção e se repercutam na qualidade poderão ser afectados internamente e na relação que têm com os mercados. Em situações viáveis, em que são reconhecidas e garantidas a importância e a mais-valia económica e social da internacionalização, procuramos encontrar soluções de reforço ao apoio existente com o envolvimento directo da Agência e em articulação com outras entidades, nomeadamente entidades financeiras, para se encontrarem as melhores soluções para esses problemas específicos.

E as empresas portuguesas que produzem maioritariamente para clientes estrangeiros? Poderão ser igualmente penalizadas?

Não é diferenciável genericamente a situação destas empresas em relação a todas as empresas que têm um reconhecido papel em termos de economia nacional e na efectiva criação de riqueza. O apoio à internacionalização das empresas do arco exportador não é uma exclusividade em matéria de ajuda às empresas envolvidas no desenvolvimento da economia nacional. Aliás, vender também no mercado interno e fazer crescer esta dinâmica é determinante para o equilíbrio da balança comercial. Internacionalização é igualmente concorrer e competir no mercado doméstico contra produtos de origem estrangeira.

O que deveria então ser feito para tentar minimizar o impacto negativo decorrente desta situação?

Há certamente muito a fazer e muitos esforços têm sido desenvolvidos para diminuir os impactos nefastos da crise internacional que está a afectar sobretudo a Europa, a Zona Euro e naturalmente os países do Sul, como é Portugal. Os principais agentes deste combate – nunca é de mais sublinhar – têm sido as empresas que batalham arduamente para manter e aumentarem até as suas posições nos mercados externos numa conjuntura adversa. Temos procurado reforçar a nossa condição de parceiros eficazes das empresas neste grande esforço e penso que isso tem sido reconhecido em público e em privado, quer por agentes económicos, quer pelas mais diferentes instâncias políticas e órgãos de soberania.

Devo assinalar, no entanto, que para haver resultados efectivos mais substanciais e duradouros é absolutamente necessário criar condições de estabilidade política e que os decisores de uma vez por todas entendam que o crescimento da economia é a única resposta consistente ao problema da dívida e ao equilíbrio das contas do Estado e que o crescimento, por sua vez, se tem de alicerçar na internacionalização empresarial.

Até que ponto a Marca-Portugal tem sido relevante na expansão do negócio das marcas portuguesas?

A Marca-Portugal se fosse um compósito inextrincável de elementos desconexos de defeitos e virtudes seria desvalorizada em determinados aspectos e valorizada noutros. Penso que ninguém duvida de que as manchetes e os noticiários dos principais media internacionais sobre a crise política, na sequência do chumbo do PEC, afectaram negativamente a imagem do País. Por outro lado, a persistência e a determinação das empresas nos mercados internacionais, em situações difíceis, na sua relação com os clientes estrangeiros, sairiam reforçadas por relevarem a sua capacidade e determinação, apesar dos ventos contrários.

Claro que a marca é um elemento muito importante e constitui um activo imprescindível. A imagem de Portugal, construída com muitas marcas explícitas e implícitas, tem sido reforçada internacionalmente, conjugando a qualidade de produtos e serviços em áreas fulcrais da modernidade, graças às apostas bem sucedidas das empresas, com o estímulo e o apoio de instituições como a nossa agência, em inovação, gestão, marketing, conhecimento e na diferenciação de produtos e serviços. Esta imagem feita de pessoas, de empresas e marcas tem notoriedade e é bastante percebida e esperamos que continue a melhorar.

Acredita que a taxa de crescimento das exportações portuguesas poderá inverter-se? Que previsões para o próximo semestre?

Numa situação de grande instabilidade geopolítica e geofinanceira, estamos sob domínio da incerteza. O que se pode observar é que os últimos dados apurados e divulgados mostram que a tendência de crescimento das exportações ainda se mantém. Esperamos que assim continue e que a instabilidade política que estamos a viver não se faça sentir, tanto no sector exportador como já afectou a área do investimento estrangeiro, onde se registou abruptamente uma contracção dramática. A minha esperança está nas empresas que têm sabido resistir com vigor às condições muito adversas da crise.

O apoio do Governo à exportação/internacionalização deveria ser reforçado?

Se houvesse mais recursos reforçar-se-iam, sem dúvida, os apoios à internacionalização. No entanto, os meios financeiros e sobretudo os instrumentos que estão a ser disponibilizados às empresas, nomeadamente no que respeita ao conhecimento dos mercados e à assistência no terreno por parte da rede externa da AICEP, em conjugação com os gestores de clientes, são bastante eficazes e muito significativos.

Devo, porém, salientar que no futuro próximo deverá ser feita uma rigorosa análise de todos os apoios públicos à internacionalização actualmente existentes, por forma a garantir uma maior eficácia através de uma adequada coordenação e aproveitamento de sinergias.

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