Assim nasce uma ideia… com André Torrado, diretor criativo da Circle

Assim NasceCriatividade
Rafael Ascensão
17/08/2026
09:28
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Assim nasce uma ideia… com André Torrado, diretor criativo da Circle

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Há coisas que mudam na publicidade e outras que não mudaram nem mudarão, pelo menos nos próximos 30 anos. E uma delas é o facto de a originalidade, a pertinência e a eficácia serem os “principais constituintes de uma boa ideia publicitária”. A ideia é de André Torrado, diretor criativo da Circle, que considera que este “núcleo” de uma boa ideia se mantém intocável e que o que se pode transformar é o seu “invólucro”, ou seja, o formato, a estética ou as ferramentas utilizadas para a concretizar.

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E talvez seja precisamente essa convicção que explique a forma como o também fundador da agência publicitária olha para a criatividade num momento em que a tecnologia e a inteligência artificial estão a alterar profundamente a indústria. No seu entender, esta tecnologia não tem “praticamente influência alguma”.

“Se estivermos a falar no processo de criação da ideia, a tecnologia, e, em particular, a IA, não têm praticamente influência alguma. Já no campo da produção da ideia, a IA é um avanço incrível. Hoje, pensamos muito mais livremente porque a IA é um estúdio de pós-produção de imagem formidável. Atualmente, tudo se faz com outra rapidez e com uma qualidade invejável. Temos é de saber lidar com a IA enquanto ferramenta. Ela ainda está a dar os primeiros passos e faz muito disparate que há que saber corrigir e lapidar”, explica.

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Mas há uma fronteira que o diretor criativo não quer ultrapassar: os dados podem informar a criatividade, mas não devem passar a geri-la, pois, afinal, uma ideia não pode transformar-se num “exercício matemático” e deve continuar a reservar espaço para a emoção, o risco e o inexplorado.

  1. O que é, atualmente, uma boa ideia em publicidade?

Uma boa ideia é algo que acrescenta qualquer coisa ao mundo em que vivemos. E isso não muda, por mais que os anos mudem.

Eu não penso de forma muito diferente do que fazia quando comecei. Continuo à procura da originalidade, da pertinência e da eficácia. Estes são os principais constituintes de uma boa ideia publicitária. Não mudaram e nem mudarão nos próximos 30 anos.

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Depois, se o invólucro da “boa ideia” se alterou, ou seja, se o seu formato, ou a sua estética evoluíram, isso é outra coisa. Agora o núcleo mantém-se imutável. E ainda bem.

  1. Uma boa ideia nunca nasce sem…?

Aqui tenho de ir para a resposta expectável: trabalho. Embora eu não seja daqueles que considera que a primeira ideia é sempre uma má ideia, ela carece sempre da confirmação das que se lhe seguem para se afirmar como a melhor. Por isso, diria que uma boa ideia precisa sempre de uma boa dose de trabalho.

  1. Como se equilibra a criatividade com dados, research e estratégia?

A criatividade publicitária não é um exercício abstrato de imaginação. Ela destina-se a atingir um objetivo e, para tal, deve ter por base uma estratégia. Ora, os dados são um auxiliar precioso da estratégia. Torna-nos mais conhecedores do nosso público alvo, por exemplo, o que permite uma criatividade mais objetiva e efetiva.

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Mas não confundamos uma criatividade auxiliada por dados, com uma criatividade gerida por dados. A ideia nunca se deve tornar um exercício matemático. A criatividade deve continuar a ter em conta o universo emocional e a ter apetência pelo risco, ou seja, o inexplorado. E aí os dados dificilmente chegam.

  1. Qual o maior desafio ao defender uma ideia junto do cliente?

Há vários. Um deles é o número de pessoas que constituem a plateia. Se esta for grande, a probabilidade de ter alguém com uma opinião menos favorável em relação à ideia é maior. E, depois, a negatividade é como o fogo na pradaria em dia de vento: espalha-se a uma velocidade incrível. E é difícil apagar.

No entanto, para mim, o maior obstáculo a transpor é a falta de coragem. Nós, portugueses, temos um grande medo de falhar, por isso, arriscamos pouco. Demasiadas vezes, preferimos replicar o que faz toda a gente a fazer diferente. E contrariar esse comportamento demasiado calcinado é, muitas vezes, complicado.

  1. A criatividade está mais condicionada ou mais livre do que há 10 anos?

Na minha experiência, não sinto uma diferença por aí além. Considero que estamos num planalto comportamental, onde a criatividade eterniza os mesmos defeitos e virtudes. No nosso microcosmos, há pouco rasgo e capacidade de inovar mas muita resiliência e capacidade de integração da mudança.

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Agora, se estivermos a falar do universo técnico, o caso muda de figura. Aí a alteração é grande e com impacto na criatividade gerada.

  1. Que impacto têm a tecnologia e a IA no processo criativo?

Se estivermos a falar no processo de criação da ideia, a tecnologia, e, em particular, a IA, não têm praticamente influência alguma. Já no campo da produção da ideia, a IA é um avanço incrível.

Hoje, pensamos muito mais livremente porque a IA é um estúdio de pós-produção de imagem formidável. Atualmente, tudo se faz com outra rapidez e com uma qualidade invejável. Temos é de saber lidar com a IA enquanto ferramenta. Ela ainda está a dar os primeiros passos e faz muito disparate que há que saber corrigir e lapidar.

  1. Onde vai buscar inspiração fora da publicidade?

A tudo. Um publicitário tem de ser um eterno voyeur do mundo. De preferência sem grande critério. Ver o bom, o mau e o médio, querer saber da conversa da vizinha e da última exposição da Gulbenkian. Depois é misturar tudo, chocalhar e trazer para o processo de criação de ideias. Quanto maior for o teu mundo, melhores serão as tuas ideias.

  1. Como lida com bloqueios criativos?

Isso é uma prerrogativa dos artistas. Nós, os publicitários, somos os proletários da ideia. Por isso, se ela não vem, há que colocar mais horas no expediente. Simples!

  1. Uma ideia que gostaria de ter tido?

Ui, tantas. Mas vou eleger uma ideia incrivelmente simples, com um insight incrivelmente poderoso: a campanha “You’re not you when you’re hungry”, para o chocolate Snickers.

  1. Que conselho daria a quem quer hoje seguir uma carreira criativa?

Isto não é vida de Rock-Star, portanto, é mesmo preciso gostar. Se vieres com vontade de arregaçar as mangas, terás futuro, caso contrário, será tudo muito escuro.






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