Para André Sousa Moreira, diretor criativo da Cooprativa, uma boa ideia continua a nascer exatamente do mesmo lugar de onde sempre nasceu: de uma verdade partilhada. Num mercado onde tudo parece acelerado, medido e otimizado, o ponto de partida mantém-se assim humano, entende o criativo, que defende que uma ideia só é realmente boa quando tem por base um insight real. Ou seja, algo que o público reconhece, sente ou vive. O resto, diz, são camadas – como o craft ou o timing – mas o essencial permanece imutável e capaz de passar no “teste do tempo”.
Para o também sócio da agência sediada em Torres Vedras, dados, research e estratégia não são travões à imaginação mas sim o combustível que lhe dá direção. Aliás, uma ideia pode ser brilhante, defende, mas sem estratégia morre “na praia”, pelo que é preciso saber quem se quer alcançar, como a ideia vai viver e que impacto pretende gerar. Os dados entram antes, para orientar, e depois, para medir e aprender, afirma.
Defender uma ideia junto de um cliente é, para André Sousa Moreira, um exercício de construção contínua, com o diretor criativo a defender que nenhuma ideia é só da agência ou só do cliente, nascendo antes de um trabalho conjunto, da escuta e da capacidade de transformar um insight em algo “à prova de bala”.
Hoje, com tecnologia e IA a acelerar processos e a reduzir fricções, André acredita que a criatividade está mais livre do que há uma década. Os meios multiplicaram-se, os caminhos também mas, no fim, o que distingue uma grande ideia é o mesmo fator que sempre a distinguiu: a simplicidade desarmante que faz alguém pensar “como é que nunca me lembrei disto”.
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O que é, atualmente, uma boa ideia em publicidade?
Atualmente, uma boa ideia em publicidade é, e sempre será, uma ideia que parte de um insight real, local ou global, no qual o público se reveja ou sinta uma ligação. Tem de partir de uma verdade partilhada por um determinado grupo de pessoas. Depois, há fatores determinantes que acrescentam valor, como o craft ou algum elemento de novidade, mas uma boa ideia será sempre uma boa ideia. Se for uma ideia, imaginemos, de 2000, mas que ainda consiga impactar, tocar o coração das pessoas e permanecer atuais, aquilo a que chamo o teste do tempo, isso prova que provavelmente será uma grande ideia.
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Uma boa ideia nunca nasce sem…?
Uma verdade partilhada por um determinado grupo de pessoas.
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Como se equilibra a criatividade com dados, research e estratégia?
Na verdade, uma ideia não vive sem tudo isso. Para se construir uma boa ideia, é necessário conhecer o mercado, o que se está a vender e quem se quer alcançar. Sem estratégia, por muito boa que seja uma ideia, esta pode morrer na praia, como se costuma dizer.
Temos de definir como queremos que a ideia chegue ao público e viva ao longo de um determinado período de tempo. Os dados são tão importantes antes como depois: antes, porque nos permitem definir a estratégia; depois, para perceber o alcance e os resultados obtidos e também para retirar learnings para o futuro.
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Qual o maior desafio ao defender uma ideia junto do cliente?
Acredito que é sempre necessário conquistar a confiança do cliente, e isso constrói-se com muito trabalho e dedicação. Nenhuma ideia é feita apenas pela agência ou pelos criativos; tem de ser um trabalho de equipa, feito em conjunto com o cliente. É um processo que se vai construindo ao longo do tempo.
Dito isto, acredito que temos uma ideia “à prova de bala” quando existe um insight real, sustentado por pesquisa e dados, com uma estratégia bem definida que defenda o todo.
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A criatividade está mais condicionada ou mais livre do que há 10 anos?
Diria que está mais livre, por um lado, porque temos acesso muito mais rápido à informação. Por outro, os budgets são hoje cada vez mais limitados. De qualquer forma, uma boa ideia será sempre uma boa ideia, com qualquer budget, com mais craft ou menos. Isso é discutível, mas, no fim do dia, o valor está sempre na ideia em si. As mais simples ganham quase sempre, quando têm aquele fator de “como é que nunca me lembrei disto?!”.
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Que impacto têm a tecnologia e a IA no processo criativo?
A tecnologia e a IA vieram ajudar bastante, mas nunca substituir o criativo ou a criatividade em si. São ferramentas.
A tecnologia veio tornar possível o desenvolvimento de ideias que antes não o eram. Basta olharmos para a era dourada da publicidade, em que os meios eram limitados, os chamados meios clássicos, como a rádio, a imprensa e a televisão. Apesar de achar interessante a forma como hoje se pode reinventar estes meios e torná-los novamente novidade, algo que sempre me fascinou, o meio digital e os smartphones vieram permitir outro tipo de ideias, reduzindo, por exemplo, os passos de interacção até chegar ao consumidor.
Já a Inteligência Artificial veio reduzir processos: desde o acesso a dados e informação até à própria construção de apresentações. Veio eliminar muitas fricções que antes exigiam grandes equipas e semanas de trabalho até uma apresentação ao cliente. Hoje, é um must se quisermos ser mais ágeis na resposta.
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Onde vai buscar inspiração fora da publicidade?
A inspiração vive em tudo o que nos rodeia; basta estarmos atentos e sabermos extrair valor de qualquer momento. Seja numa saída à noite, em filmes, numa conversa com desconhecidos, numa visita a uma loja e na observação do consumer journey, ou até nas aprendizagens do dia a dia. É um processo simbiótico, como gosto de lhe chamar.
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Como lida com bloqueios criativos?
Acho que, com o tempo e a experiência, os bloqueios criativos tendem a desaparecer. Mas, acima de tudo, é fundamental rodearmo-nos de boas equipas, com perspectivas e pontos de vista diferentes, porque o trabalho é coletivo. Assim, reduzimos bastante a probabilidade de os bloqueios criativos existirem.
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Uma ideia que gostaria de ter tido?
Dove Real Beauty Sketches, da Ogilvy Brasil, com direcção criativa do português Hugo Veiga.
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Que conselho daria a quem quer hoje seguir uma carreira criativa?
Atirem-se de cabeça ao desconhecido e aos desafios que provocam aquele frio na barriga e nos empurram para fora da zona de conforto. Enquanto existir desconforto, é bom sinal: quer dizer que nos importamos. E só assim conseguimos evoluir e tornar-nos bons criativos. Vão errar? Sim, e bastante. Mas é apenas assim que se aprende, se cresce e se constrói um percurso sólido.














