As Redes Sociais tornaram-se parte incontornável da nossa vida em sociedade

Por Esperança Afonso, directora da Marktest Consulting

Quando escrevi inicialmente o título deste artigo, ainda em versão de trabalho, fiquei com dúvidas sobre a formulação escolhida. “Sim, as redes sociais são importantes, mas são mesmo ‘incontornáveis’ para a nossa vida em sociedade?”.

Bastaram-me três dias e um épico ‘apagão’ de algumas das redes mais usadas em todo o mundo para perceber que o título era também ele incontornável: durante várias horas, mais de 3,5 mil milhões de utilizadores do Facebook, do Instagram, do Messenger e do WhatsApp viram-se impedidos de aceder a estas plataformas, ficando assim privados de comunicar e de interagir com familiares, amigos, colegas de trabalho ou clientes.

O mundo não colapsou, é certo. Mas o impacto mediático foi tremendo, reflectindo o pequeno ‘abanão’ que todos os utilizadores sentiram quando se viram privados de aceder a ferramentas que já fazem parte do nosso modo de vida e da nossa organização enquanto sociedade.

A verdade é esta: a digitalização e as redes sociais alteraram radicalmente o modo como nos ligamos ao mundo que nos rodeia. Permanentemente conectados em rede, somos hoje cidadãos, familiares, amigos, colegas ou consumidores sempre despertos para alertas de notícias, tweets, notificações no Instagram, novos vídeos no TikTok ou lembretes no Facebook. Sabemos também que o vestido que vimos há dias no Instagram está a três cliques de ser comprado, contamos com o Facebook para nos lembrar do aniversário dos amigos logo de manhã e, se não temos ideias sobre onde ir jantar, qualquer grupo de amigos no WhatsApp rapidamente se transforma num ‘guia Michelin’.

Todo este contexto é hoje normal, já quase não o questionamos. Mas foi um processo progressivo, que se foi instalando no nosso quotidiano, sobretudo ao longo da última década, e com reflexos evidentes nos sucessivos resultados do estudo “Os Portugueses e as Redes Sociais”, que a Marktest produz todos os anos desde 2011 e cuja próxima edição será lançada esta semana.

A evolução tem sido evidente e os dados muito claros: há cada vez mais portugueses com perfis criados em cada vez mais redes sociais; inevitavelmente, o tempo que passamos ligados a estas plataformas tem também aumentado e ia já em 96 minutos por dia, em média, no ano passado; e a diversidade de redes a que dedicamos atenção não cessa de se renovar: entre 2011 e 2021, o número de redes sociais onde os portugueses têm conta mais que duplicou, passando de uma média de 2,62 para 6,06.

Mas quando paramos para pensar, em perspectiva, no caminho que trilhámos até aqui nos últimos anos, percebemos que a evolução da última década foi, também ela, vertiginosa. Deixo um exemplo concreto: sabe qual era a rede social dominante em Portugal no ano antes de a Marktest lançar o estudo “Os Portugueses e as Redes Sociais”? Talvez não se lembre de um projecto que se chamava Hi5…

Parece uma memória distante, não parece? Mas a verdade é que só em Outubro de 2009 é que o Facebook ultrapassou em Portugal o Hi5 no tempo que os portugueses dedicavam às redes sociais. E só em Dezembro desse ano é que o número de utilizadores do Facebook ultrapassou o número de utilizadores do Hi5.

O Top5 de visitas a sites de redes sociais em Portugal em 2010, de acordo com o estudo Netpanel da Marktest, é, aliás, bastante esclarecedor quanto à efemeridade de alguns fenómenos. Se não vejamos: O Facebook liderava com pouco mais de 3 milhões de utilizadores únicos; o Hi5 ocupava o segundo lugar com cerca de 2,2 milhões; e nas posições seguintes surgiam o Flickr (com pouco mais de 1 milhão), o MySpace (900 mil) e o Twitter (840 mil).

Fazendo “fast forward” para a última edição do estudo “Os Portugueses e as Redes Sociais”, divulgado em 2020, ficamos com uma visão muito clara do quanto este panorama mudou. No último ano mais de 92% dos utilizadores de redes sociais tinham conta criada no Facebook e mais nenhuma das redes de 2010 se mantinha no Top5. A segunda posição era agora ocupado pelo WhatsApp (80,3% dos utilizadores de redes sociais), Instagram (73,3%), Messenger (71,4%) e YouTube (53,2%).

Mas não só o tipo de redes a que aderimos está a crescer a e diversificar-se – com naturais oscilações ditadas por idades, perfis de cada rede social, modas ou tendências – como também os hábitos dos utilizadores estão a moldar-se aos novos tempos. Um dos exemplos mais evidentes disso mesmo – e com mais impacto no mercado – é o comércio online através destas plataformas.

Em 2020, de resto, a compra de produtos directamente numa rede social era um hábito já assumido por um terço (33,2%) dos portugueses com perfil criado nas redes sociais. Um valor que confirmava a tendência de crescimento nestes comportamentos de compra online e que representava um acréscimo de 3,3 pontos percentuais face aos valores registados em 2019.

Roupa (34%), calçado (13,4%) e artigos para o lar (9,7%) eram os produtos mais referidos como tendo sido comprados directamente através destas plataformas. E tudo parece apontar para que este comportamento seja para manter, dado que a satisfação com a experiência de compra está em alta: em 2020, 76,1% dos inquiridos que já tinham comprado em redes sociais mostravam-se satisfeitos com a sua última experiência de compra, o que representava o valor mais alto desde 2013.

Tendo em conta que, na edição anterior do estudo “Os Portugueses e as Redes Sociais”, mais de metade (51,6%) dos portugueses assumia se30guir marcas e empresas nas redes sociais, estes são indicadores e tendências que nenhum operador económico pode ignorar, sob pena de ficarem à margem de um mundo digital que cada vez mais se confunde com a nossa existência física. Como o recente apagão deixou evidente, de forma cristalina.

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