Opinião de Andreia Maia, Activities & Wellness manager do memmo Baleeira
Durante muito tempo, descansar parecia ser o grande objetivo das férias. Sair da rotina, esquecer o despertador, passar mais tempo ao sol e, durante alguns dias, fazer o mínimo possível. Continuamos a precisar disso. Talvez até mais do que antes. Mas a forma como procuramos sentir-nos durante as férias está a mudar.
Cada vez mais, o bem-estar faz parte da forma como escolhemos viajar e, sobretudo, da forma como queremos sentir-nos durante e depois de uma viagem. Já não procuramos apenas descansar. Procuramos dormir melhor, movimentar o corpo, passar mais tempo no exterior, estar em contacto com a natureza, recuperar física e mentalmente e, muitas vezes, regressar a casa sentindo que fizemos algo de bom por nós.
Talvez porque vivamos cada vez mais depressa, as férias começaram também a representar uma oportunidade para voltar a algumas coisas muito simples: tempo, movimento, natureza, sono, silêncio. Num quotidiano já tão preenchido, o bem-estar durante as férias pode começar simplesmente por termos liberdade para escolher aquilo de que precisamos.
É por isso que vejo o papel dos hotéis a evoluir. À medida que mudam as expectativas de quem viaja, também a hotelaria precisa de repensar aquilo que entende por experiência. O desafio passa por perceber que necessidades estão a ganhar importância para o hóspede e desenhar a oferta a partir delas. Mais do que preencher uma estadia com atividades ou criar uma agenda que os hóspedes sintam que têm de cumprir, o verdadeiro valor está em criar possibilidades. Dar-lhes a possibilidade de escolher aquilo de que precisam naquele momento.
Esta mudança também nos obriga a olhar para o bem-estar para além dos espaços onde tradicionalmente o colocámos. Talvez o desafio esteja precisamente em deixar de pensar o wellness como uma área específica da experiência e começar a entendê-lo como algo que pode atravessar toda a estadia. Durante muitos anos, falar de wellness num hotel significava quase automaticamente falar do spa, de tratamentos, de aulas de yoga e fitness. Tudo isso continua a ter o seu lugar, mas hoje sabemos que a experiência pode ser muito mais abrangente.
O próprio destino pode fazer parte do bem-estar. Trabalhar junto ao oceano tornou isso particularmente evidente para mim. Uma caminhada junto à costa, entrar no mar pela manhã, surfar, sentir o vento, respirar ar livre ou simplesmente observar o horizonte podem ter tanto valor como uma atividade formalmente identificada como “wellness”.
Não precisamos necessariamente de transformar esses momentos em práticas ou dar-lhes um nome. Às vezes, o seu valor está precisamente na simplicidade.
Talvez por isso também esteja a mudar a nossa própria ideia de luxo. Durante muito tempo, o luxo em férias esteve associado sobretudo ao conforto, ao serviço e à possibilidade de não ter de fazer nada. E tudo isso continua a ser importante. Mas, num quotidiano cada vez mais acelerado, conectado e preenchido, há outras coisas que começaram a tornar-se extraordinariamente valiosas.
Ter tempo. Ter espaço. Dormir e comer bem. Estar na natureza. Movimentar o corpo. Estar algumas horas longe de um ecrã. Sentir-se melhor fisicamente. Ou simplesmente poder decidir como queremos passar o nosso dia.
Nesse sentido, talvez uma das formas mais contemporâneas de luxo seja precisamente ter liberdade para escolher aquilo de que precisamos. Para a hotelaria, esta mudança tem também implicações muito concretas: na forma como se pensam os espaços, o serviço, a programação, as experiências e até aquilo que uma marca escolhe valorizar na forma como se apresenta ao hóspede.
E é aqui que acredito que a hospitalidade tem uma oportunidade particularmente interessante. Não transformar o bem-estar numa nova lista de obrigações, nem fazer das férias mais um espaço de performance pessoal, mas criar ambientes que tornem mais fácil cuidarmos de nós.
Porque até o wellness pode tornar-se mais uma coisa para fazer bem: acordar cedo, treinar, meditar, comer de determinada forma, cumprir uma rotina perfeita.
As férias continuam a servir para parar. Podem servir para não fazer absolutamente nada, se for isso que precisamos, mas também para experimentar uma forma diferente de começar o dia, descobrir uma atividade, voltar a movimentar o corpo, passar mais tempo na natureza ou simplesmente perceber como nos sentimos quando abrandamos.
Talvez o objetivo não seja regressarmos de férias com uma nova rotina perfeita.
Talvez seja simplesmente regressarmos mais descansados, mais presentes e um pouco mais próximos daquilo que nos faz sentir bem.












