Ana Músico, co-fundadora do ‘Alentejo e Ribatejo Food Love Fest’: “é itinerante, abrange dezenas de localidades, muitos cozinheiros de todo o país, é ‘democrático’ e acessível a todos os públicos”

Ana Músico, é empresária, CEO da agência de comunicação especializada em gastronomia, Amuse Bouche, e é a “visionária” que está por de trás do  “Alentejo e Ribatejo Food Love Fest”. Após o sucesso da  primeira edição, este festival de gastronomia regressa com uma proposta ainda mais rica e diversificada, que promete “fazer crescer água na boca” aos amantes da boa mesa.

Nesta conversa,  a empresária partilha as principais novidades nesta segunda edição, que se estenderá até ao dia 6 de abril, envolvendo um número alargado de localidades, restaurantes e chefs de renome.

Com um programa dinâmico, o festival não só celebra a autenticidade dos sabores alentejanos e ribatejanos, como promove a inovação, ao convidar chefs de diferentes origens a reinterpretar a  tradição culinária da região.

Assegurando que a gastronomia local continua a ser o foco, Ana Músico explica de que forma o festival se insere na estratégia de promoção do turismo gastronómico, atraindo tanto o público nacional como o internacional. Aqui, ficamos ainda a conhecer a curadoria cuidadosa dos chefs e restaurantes, bem como a importância da troca de experiências e ideias na evolução da gastronomia.

O que distingue esta edição do Alentejo e Ribatejo Food Love Fest da primeira? Houve mudanças significativas na programação ou no conceito?

Depois do sucesso da primeira edição, esta segunda edição envolve muitas mais localidades, restaurantes e chefs, com um programa muito intenso aos fins-de-semana de muitas razões para visitar o Alentejo e o Ribatejo, até seis de Abril. Este ano também há provas de azeites com os produtores locais em praticamente todos os restaurantes anfitriões e, claro, uma programação única, com mais de 90 chefs de todo o país a cozinhar em restaurantes regionais. E também se introduz o tema da internacionalização, com alguns chefes a convidarem colgas espanhóis… o programa completo está em fooflovefest.pt.

A curadoria da Amuse Bouche foca-se sempre em experiências gastronómicas únicas. Como foi feita a seleção dos chefs e restaurantes para este festival?

O Alentejo é uma das regiões gastronómicas mais fortes do país e acabou de ser eleito o 9º destino gastronómico do mundo, o que é extraordinário, mas não surpreende, dada a riqueza e a complexidade da sua gastronomia. O Ribatejo também se começa a afirmar, com projetos inovadores e atrevidos onde menos se espera. Por outro lado, temos em ambas as regiões, uma cozinha clássica, muito rica, histórica, inspiradora. Portanto, a seleção é feita com base na capacidade de os espaços poderem funcionar em ‘modo festivaleiro’, que é um bocadinho diferente de simplesmente servir uma boa refeição; na qualidade da comida e dos produtos utilizados, no entusiasmo em receber amigos, pensar num menu espetacular e proporcionar uma experiência muito diferente a quem os vista.

O festival abrange mais de 15 localidades. Como é que cada uma dessas regiões se reflete na gastronomia apresentada pelos chefs?

Isso depende muito dos chefs restaurantes. Não sei se haverá tanta especificidade entre essas 15 localidades, mas a ideia é envolver restaurantes de matriz clássica, que serão os guardiões da nossa cozinha tradicional, e também restaurantes de cozinha criativa, de autor, contemporânea, e naturalmente cada um deles terá a sua expressão e inspiração próprias. Essa diferença é mais relevante entre as duas regiões, o Alentejo e o Ribatejo, e pedimos aos chefes e restaurantes que explorem aos máximo essa(s) identidade(s).

O Food Love Fest pretende valorizar a autenticidade dos ingredientes regionais. Como garantir que a inovação dos chefs respeita a tradição culinária do Alentejo e Ribatejo?

Eu acho que a inovação nunca respeita a inovação (risos). Para inovar, criar algo novo, é necessário, primeiro, dominar as regras, e, segundo, depois de as dominar, ignorá-las. Só assim se pode criar algo novo… depois há a coisas que resultam e as que não resultam, e serão esquecidas. Aquilo que hoje é tradicional, já foi altamente disruptivo inovador. E o ser humano é um ser criativo, por natureza. E a natureza e a nossa relação com a natureza também está a mudar e a cozinha também evolui nesse sentido, não está cristalizada. É importante termos o espírito aberto e deixaremos cair certos preconceitos, até no que respeita à comida e à gastronomia.

 A gastronomia tem um papel essencial no turismo. Que impacto espera que este evento tenha na promoção do Alentejo e do Ribatejo como destinos gastronómicos?

O turismo gastronómico é sem dúvida uma das grandes tendências desde há uns anos – veja-se o inacreditável caminho de Espanha nas últimas décadas, que é hoje um a das grandes referências mundiais da gastronomia, ou a Dinamarca, outro destino gastronómico de excelência. Mas é um trabalho de muitos anos, de muitos players, com uma estratégia definida nesse sentido. O Food love Fest também está a fazer o seu caminho, atraindo primeiro os portugueses, a saírem de casa e a fazerem planos para os fins-de-semana, e, com mais tração e consolidação, chegará sem dúvida ao público internacional. Mas o Alentejo e o Ribatejo já são destinos gastronómicos! Este festival, com campanhas de divulgação e promoção bastante ambiciosas nesta segunda edição, em que se destacam os restaurantes, os chefs e as localidades, tem um impacto enorme na afirmação destes destinos, sem dúvida.

A presença de chefs de renome nacional e internacional é um dos destaques do festival. Como é que este tipo de colaborações contribui para a valorização da cozinha regional?

Uma das regras de ouro do Food love Fest é a utilização, praticamente exclusiva, de ingredientes e produtos regionais, locais. Novas criações e abordagens de cozinheiros ‘estranhos’ às cozinhas alentejana e ribatejana, serão sempre uma mais valia para a nossa gastronomia. É assim que evoluímos, saindo da zona de conforto para experimentar o novo, o ‘desconhecido’. E esta dinâmica também é um dos pontos fortes deste festival, a troca de ideias, novas abordagens, algum experimentalismo, criatividade e ousadia q.b… Por outro lado, participam restaurantes que são os grandes pilares da cozinha tradicional regional, mas também projetos muito inovadores, com um registo totalmente diferente. Este diálogo é fundamental para a evolução da gastronomia e até para o desenvolvimento de uma cultura gastronómica nacional, mais espessa, conhecedora, aberta.

 O Food Love Fest aposta num modelo que combina tradição e criatividade. Acha que esta fórmula pode ser aplicada a outras regiões de Portugal?

Sim, essa é a história da nossa gastronomia. Na verdade, não há qualquer antagonismo entre a cozinha clássica e a cozinha de autor. Não existe uma sem a outra, e, como já referi, a que é hoje a matriz clássica da nossa cozinha, foi um dia pura inovação. E nós temos um território que é tão diverso e heterogéneo, mas com cozinhas com um carácter muito forte de região para região. Trazer essas diferenças para o primeiro plano é muito saudável, é estimulante e faz todo o sentido.

Num setor onde a diferenciação é essencial, que estratégias de marketing digital e comunicação estão a ser implementadas para atrair tanto o público nacional como internacional para esta segunda edição do festival?

O Food Love Fest tem um conceito único: é itinerante, abrange dezenas de localidades, muitos cozinheiros de todo o país, é ‘democrático’ e acessível a todos os públicos, e por isso a sua força, as linhas de comunicação, residem aqui, nesta especificidade. Por outro lado, é um festival promovido pela ERT Alentejo e Ribatejo, que este ano apostou, em conjunto com a Amuse Bouche, numa campanha de meios bastante robusta, levando-o um publico muito vasto, através das suas múltiplas plataformas de divulgação. E a Amuse Bouche também faz o seu papel, com uma campanha de PR e Comunicação e nas redes sociais criativa, empática e apelativa. Também desafiamos a imprensa e os influencers na área da gastronomia e do lifestyle a estarem presentes em diversas iniciativas, e este ano temos a presença de jornalistas e influencers internacionais, muito bem posicionados no entourage gastronómico mundial, que aceitaram, o desafio de estarem no Food love Fest. Por exemplo, este grupo irá celebrar os 80 anos do Fialho, uma das grandes instituições da cozinha tradicional portuguesa, em Évora, mas também irá fazer uma experiência num restaurante de cozinha criativa… tem os dois lados de uma gastronomia que tem mais de 800 anos de história, mas que é dinâmica, efervescente, está viva e em evolução. É um orgulho enorme! Há melhor maneira de promover o nosso país?

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