“A tecnologia foi o maior impulsionador de progresso na acessibilidade dos festivais”, assegura Tiago Fortuna (co-fundador da Access Lab)

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Maria João Lima
22/07/2026
17:00
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“A tecnologia foi o maior impulsionador de progresso na acessibilidade dos festivais”, assegura Tiago Fortuna (co-fundador da Access Lab)

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Ainda decorre a época de festivais de Verão de 2026 para a Access Lab que este ano marcou presença no NOS Alive, MEO Marés e no Ageas Cooljazz (este último ainda está a decorrer até ao final do mês). Ao longo do mês de Julho os três eventos colocaram em evidência o trabalho feito pelas marcas em conjunto com a Access Lab e com os promotores dos eventos no que respeita ao tema da acessibilidade.

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Em conversa com a Marketeer, Tiago Fortuna, co-fundador da Access Lab – startup que pretende mudar o paradigma da acessibilidade em Portugal, criando pontes entre marcas, eventos, organizações e a comunidade de pessoas com deficiência e surdas -, faz um balanço da importância da ligação às marcas e de estas continuarem a investir em responsabilidade social.

Olhando para o panorama dos festivais de Verão deste ano em comparação com o ano anterior, quais foram as grandes conquistas em termos de acessibilidade e que barreiras antigas conseguiram finalmente derrubar?

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Tiago Fortuna, co-fundador da Access Lab

A tecnologia foi o maior impulsionador de progresso na acessibilidade dos festivais este ano. Conseguimos ter mais recursos disponíveis para o público: no NOS Alive, a app Guia-NOS, da NOS, permitiu a pessoas cegas e com baixa visão ouvir audiodescrições criadas por inteligência artificial; no Ageas Cool Jazz trabalhámos com a Fundação Ageas para garantir bilhete de acompanhante, certificação de festival acessível do Turismo de Portugal, e disponibilizar Língua Gestual Portuguesa e coletes sensoriais; por último, no MEO Marés, continuamos com a MEO e a sua Fundação, que tem três anos de evolução e onde estreamos a app Sentido para transmissão de Língua Gestual (que pode ser vista em qualquer parte do recinto) e audiodescrição.

São avanços muito relevantes, e que, começando aqui podem chegar a muitos mais eventos e elementos da comunidade. No ano passado, alguma desta tecnologia era apenas pilotada.

 

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“As plataformas de visibilidade continuam a ter grandes carências de intervenção, como a limitação de pessoas, a localização, o acesso a casas de banho.”

 

Sentem que os festivais estão a passar de uma acessibilidade ‘básica’ (como rampas e casas de banho) para uma experiência verdadeiramente integrada (com audiodescrição, coletes vibratórios ou equipas preparadas)?

Sem dúvida que sim, mas não podemos descurar em momento o trabalho elementar. As plataformas de visibilidade continuam a ter grandes carências de intervenção, como a limitação de pessoas, a localização, o acesso a casas de banho. O encanto pela tecnologia, que é maravilhoso, e nos permite fazer progressos que não imaginávamos de forma sustentável, deve ser acompanhado da disponibilidade de promotores para colaborar em questões de infra-estruturas ou dos artistas para algo tão elementar como cederem os seus alinhamentos para as interpretações em língua gestual serem rigorosas.

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As marcas estão a fazer o que ninguém fez, precisam dos promotores para continuar a evoluir e dos artistas. É importante lembrar que, no fim do dia, são estes elementos quem mais beneficia.

As marcas entram nos festivais com grandes orçamentos de marketing. Como tem sido o trabalho da Access Lab para consciencializar estas marcas de que investir em acessibilidade (seja nos seus stands ou na jornada do festival) é também uma forma de activação e responsabilidade social? Têm sentido maior abertura da parte delas para financiar estas soluções?

Sentimos uma mudança de quase 180º, as próprias activações das marcas tornaram-se acessíveis e esse foi o primeiro passo que deram – trouxeram rampas para os seus espaços, plataformas, casas de banho acessíveis. Estamos a falar, claro, das marcas com que trabalhamos. A grande maioria continua sem considerar acessibilidade – o que é paradoxal, dado que os naming sponsor já têm acções consequentes. E se assim é, porque esperam os outros?

Na Access Lab, este ano, estivemos com a NOS, com a Fundação Ageas, Fundação MEO e MEO, todas souberam ocupar territórios diferentes e há espaço para impactar o mercado e a comunidade com dignidade e integridade. Não estamos a competir, estamos a evoluir.

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“Seria bom evoluirmos para um modelo em que os promotores alargassem a sua consciência e investissem mais em bilheteira e condições de equidade.”

 

Em comparação com o ano passado, sentem que os promotores já vos procuram mais cedo na fase de pré-produção, ou a acessibilidade ainda continua a ser vista por alguns como um ‘acrescento de última hora’ na montagem dos festivais?

Ao longo destes 4 anos, no trabalho concreto de festivais, têm sido sempre as marcas a procurar-nos, que depois envolvem os promotores. Podem procurar ainda mais cedo, o trabalho deve começar no momento em que os bilhetes são postos à venda e isso ainda não acontece – porque os patrocínios e os seus detalhes não estão todos fechados quando os bilhetes são postos à venda.

Seria bom evoluirmos para um modelo em que os promotores alargassem a sua consciência e investissem mais em bilheteira e condições de equidade e competividade para espectadores com deficiência desde o momento em que lançam os seus festivais ao mercado. Ou as marcas também: a Fundação Ageas tomou a posição de assegurar o bilhete de acompanhante de pessoa com deficiência no Ageas Cool Jazz e fê-lo atempadamente.

A vossa presença estende-se desde eventos gigantes até eventos de nicho ou mais urbanos. Que diferenças estruturais sentiram na resposta dos promotores e das marcas deste ano consoante a escala do festival? É mais fácil implementar inovação inclusiva em grandes produções ou nos festivais mais pequenos?

Tudo depende da disponibilidade das equipas. É verdade que com uma grande marca é mais fácil inovar, sobretudo do ponto de vista tecnológico ou de recursos como a Língua Gestual Portuguesa e audiodescrição, mas não são precisos tantos recursos para ter básicos como o bilhete de acompanhante e uma página de acessibilidade.

A informação sobre acessibilidade é fundamental e ainda não é considerada pelo mercado, é uma oportunidade. As pessoas não sabem que transportes usar (porque não são os mesmos que o público em geral), onde estacionar, como é o pavimento, que recursos estão disponíveis. Precisamos de dizer o que temos mas também precisamos de ser claros sobre aquilo que não temos.

Um dos poucos projectos que temos financiado pelo promotor, e não por uma marca, é a Feira do Livro de Lisboa. O Parque Eduardo VII é altamente desafiante, bem como toda a infra-estrutura da feira. Comunicar é onde podemos fazer a diferença. Todos os pavilhões – mais de 300 – têm sinalização para rampas, mapas afixados com indicação de acessibilidade, o staff tem formação, entre outros recursos. E isto, com um esforço grande, permitiu a distinção este ano de Festival
Acessível pelo Turismo de Portugal.

A Access Lab tem feito um trabalho de advocacy, nomeadamente com a proposta de lei para a gratuitidade do bilhete de acompanhante. Como é que os promotores têm reagido a esta transição e de que forma esta sinergia entre promotores, marcas e o vosso trabalho está a mudar as regras do jogo para os próximos anos?

Estamos muito felizes com o decreto-lei 65/2026, que institui a gratuitidade de bilhete de acompanhante nos espaços culturais de todo o País. Estamos a falar de uma uniformização de 400 equipamentos culturais, esta escala era algo que procurávamos. Isto aconteceu por todas as pessoas que, ao longo dos anos, foram vocais. Faltam mais de 600 equipamentos privados e esse trabalho precisa de ser feito para avançarmos para outras coisas.

Este ano conseguimos trabalhar para que o Ageas Cool Jazz e o MEO Marés adoptassem voluntariamente (enquanto promotores privados) a medida. Restam poucos festivais sem tomar esta posição por sua vontade e isso deixa-nos felizes, também mostra evolução enquanto sociedade e mercado.

O problema é que se trata também de uma questão de uniformização: não defendemos descontos, nem que as pessoas com deficiência deixem de pagar bilhete. Defendemos que o paguem, mas não tenham outro cobrado. Isso é um incentivo à compra e a mais clientes, queremos que todos os responsáveis compreendam isto. É uma oportunidade de negócio e uma questão basilar de equidade. Temos 400 equipamentos públicos, faltam 600 privados. Precisamos dos 1000.

Texto de Maria João Lima

*A jornalista escreve Segundo o Antigo Acordo Ortográfico

 






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