Num momento em que a Inteligência Artificial está a transformar profundamente a forma como as marcas comunicam, a agência Bastarda dá um passo estratégico ao criar um departamento dedicado exclusivamente a esta tecnologia. Longe de encarar a IA como uma ameaça à criatividade, a empresa vê-a como uma ferramenta capaz de potenciar ideias, otimizar processos e redefinir o papel dos criativos.
Por Sandra M. Pinto
Nesta entrevista, David Beijoco explica como a agência está a integrar a Inteligência Artificial no seu dia a dia, quais os impactos já visíveis na produção de campanhas e de que forma esta aposta poderá influenciar o futuro da criatividade e da relação entre marcas e consumidores.
O que motivou a Bastarda a criar um departamento dedicado à Inteligência Artificial neste momento?
Porque ficar parado não é uma opção. Na Bastarda, o desconforto faz parte do processo e é isso que nos obriga a evoluir. Faz parte do nosso ADN procurar constantemente formas de melhorar o nosso produto e desafiar a forma como trabalhamos criatividade e estratégia. A Inteligência Artificial entrou naturalmente nesse caminho.
Mais do que uma tendência, vemos a IA como uma ferramenta com impacto direto na qualidade do que fazemos – tanto na forma como acelera processos, como na capacidade de expandir o pensamento criativo e elevar a ambição do produto. Este é o momento certo para a integrar de forma estruturada, não como algo paralelo, mas como uma camada transversal ao nosso trabalho.
De que forma a IA está a ser integrada no processo criativo sem comprometer a originalidade das ideias?
A criatividade não está em risco. As ferramentas nunca foram o problema… nem nunca foram, por si só, a solução. Na Bastarda, a Inteligência Artificial entra sobretudo para tirar peso operacional do processo. Isso liberta espaço para aquilo que realmente interessa: pensar melhor, questionar mais e desenvolver ideias menos óbvias. A originalidade continua a nascer das pessoas. A IA ajuda-nos a reduzir fricção, explorar mais caminhos e chegar mais depressa a territórios criativos que, de outra forma, demorariam muito tempo a testar.
O foco não está em automatizar a criatividade, mas em aumentar o espaço disponível para ela acontecer.
Como é que a utilização de IA está a transformar o desenvolvimento e execução de campanhas na agência?
Está a fazer uma coisa simples: retirar fricção ao processo. Estamos a acelerar a implementação destas ferramentas com foco em duas frentes: otimizar processos e criar automatismos com valor acrescentado no trabalho que produzimos. Isso traduz-se em menos tempo gasto em tarefas repetitivas e mais tempo dedicado ao que realmente faz diferença. Estamos a automatizar onde faz sentido e a usar esse ganho para elevar o nível criativo e estratégico das campanhas. O impacto da IA não está na ferramenta em si, mas na forma como reorganiza o nosso tempo e, por consequência, a qualidade do que entregamos.
Que ganhos concretos já estão a observar em termos de eficiência, testes e produção de conteúdos?
A implementação está a ser feita de forma gradual, precisamente para garantir consistência e evitar expor o processo a limitações que estas ferramentas ainda têm. Hoje conseguimos produzir, testar e ajustar conteúdos com uma rapidez que antes não era possível, sobretudo em peças menos críticas ou mais operacionais, onde o tempo de execução foi significativamente reduzido. Isso tem um efeito direto no trabalho criativo: menos desperdício de tempo em execução e mais capacidade de explorar variações e melhorar ideias em tempo útil.
Há ainda um ganho relevante na forma como comunicamos com as marcas. As apresentações estão mais estruturadas, mais claras e mais eficazes na forma como vendem o pensamento criativo.
De que forma esta tecnologia está a redefinir o papel dos criativos dentro da Bastarda?
Nos últimos anos, a complexidade da comunicação digital levou muitas equipas criativas a acumularem funções mais operacionais, por necessidade do próprio ecossistema. Com as otimizações que temos em curso, esse equilíbrio começa a mudar. A equipa ganha espaço para assumir, cada vez mais, um papel estratégico e criativo, mais focado no pensamento do que na execução. A tecnologia ajuda a limpar ruído do processo. Isso permite recuperar uma dimensão essencial do trabalho criativo: menos tempo como executores, mais tempo como autores.
Como é que garantem o equilíbrio entre automação tecnológica e o pensamento criativo humano?
A premissa tem de ser clara: a tecnologia serve a criatividade, não o contrário. A automação é essencial porque liberta tempo e acelera processos. Mas o valor não está na automação em si, está no que fazemos com o espaço que ela cria. A criatividade continua a ser insubstituível porque parte de algo que a tecnologia ainda não consegue replicar: a leitura do comportamento humano em constante mudança, a curiosidade e a capacidade de interpretar sinais que ainda não estão totalmente traduzidos em dados. É nesse território que a equipa faz a diferença. A tecnologia ajuda-nos a chegar mais rápido e com mais escala, mas a leitura crítica, a intuição e a decisão continuam a ser humanas. No fundo, é um equilíbrio claro: a tecnologia acelera, a criatividade decide.
Que impacto esperam que este novo departamento tenha na relação e no trabalho desenvolvido com os clientes?
Esperamos impacto em dois eixos muito claros: rapidez e escala. Por um lado, maior agilidade e consistência na entrega, com capacidade de responder mais depressa e de forma mais estruturada aos desafios dos clientes. Por outro, uma maior amplitude no que é possível fazer, independentemente do desafio ou do orçamento. Mas o impacto mais relevante vai além da produção. Ao reduzir o tempo de execução, criamos mais espaço para o que realmente acrescenta valor: pensar o negócio do cliente, aprofundar a estratégia e elevar a qualidade das decisões criativas.
Que tipo de campanhas ou projetos passam agora a ser possíveis com a integração de IA?
Não é uma questão de novos formatos, mas de novas possibilidades. Conseguimos trabalhar múltiplas ideias em paralelo, testar narrativas diferentes e ajustar abordagens quase em tempo real. Isso muda a forma como uma campanha evolui ao longo do seu ciclo de vida. Passamos a trabalhar campanhas mais dinâmicas, mais adaptativas e menos lineares, onde a ideia não termina no lançamento, mas continua a evoluir depois dele.
Como estão a preparar as equipas da Bastarda para esta nova realidade de trabalho com inteligência artificial?
A primeira fase passou por criar alinhamento e consciência. Hoje, a equipa tem uma visão clara dos objetivos e do papel que a Inteligência Artificial deve ter no nosso dia a dia. Depois veio a fase de experimentação: testar ferramentas, partilhar aprendizagens e integrar novas soluções de forma orgânica entre equipas.
Agora, entramos numa fase de estruturação. O novo departamento existe precisamente para isso – transformar o que hoje é explorado de forma mais pontual em ferramentas de base, integradas no sistema de trabalho. Tudo isto acontece num processo contínuo de mapeamento, teste e otimização.
Qual é a visão da agência para o futuro da criatividade assistida por IA nos próximos anos?
Acreditamos que a criatividade vai regressar a um estado mais essencial, mais próximo daquilo que sempre definiu as melhores agências: a capacidade de interpretar comportamento humano e transformar isso em ideias com impacto.
Nos últimos anos, a complexidade do ecossistema digital trouxe uma multiplicação de processos e exigências operacionais que, inevitavelmente, dispersaram parte desse foco. Com estas ferramentas, acreditamos que vamos recuperar espaço para o que é central: estudar pessoas, pensar melhor e tomar decisões criativas com mais profundidade.
Curiosamente, isto pode tornar-nos mais “antigos” no melhor sentido do termo. Mais focados no essencial, menos distraídos pela execução.
As melhores agências sempre foram aquelas que melhor entendem pessoas. A IA pode ajudar-nos precisamente a voltar aí.
De que forma esta aposta pode influenciar a forma como as marcas desenvolvem estratégias de marketing mais eficazes e adaptadas ao mercado?
Queremos reforçar o nosso papel como parceiros dos departamentos de marketing dos clientes, sendo parte ativa na implementação destas ferramentas e na forma como estas são aplicadas às suas estratégias. As marcas dominam o produto, nós dominamos a leitura de pessoas e comportamentos. Com mais velocidade na análise de dados e maior capacidade de produção e teste de conteúdos, essa colaboração torna-se mais próxima e eficiente. A distância entre insight e ação encurta, o que aumenta diretamente a relevância das estratégias. No fundo, mais proximidade entre equipas significa mais eficácia nas estratégias.
Que impacto pode a IA ter na construção de marcas mais consistentes, relevantes e com maior capacidade de personalização junto dos consumidores?
A IA pode tornar as marcas mais consistentes, relevantes e personalizadas, sobretudo na forma como vão conseguir escalar e adaptar comunicação. Mas o seu impacto mais profundo não está na automação, está em amplificar a inteligência estratégica e criativa que constrói significado, diferenciação e direção para a marca.














