A economia do falso paga-se cara. E é você que paga.

Opinião
Marketeer
04/05/2026
20:02
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Opinião de Amália Gonçalves, IP Account Manager na J. Pereira da Cruz

Há um erro muito comum quando se fala de contrafação e pirataria. Muita gente olha para estes fenómenos como faltas menores, quase sem vítimas, como se comprar uma imitação barata ou aceder a um serviço ilegal fosse apenas uma forma de poupar dinheiro, mas essa ideia está errada e o falso pode parecer barato no momento da compra, mas sai caro à economia, à inovação, à cultura e até à nossa segurança.

O valor de uma empresa não assenta apenas em fábricas, terrenos ou máquinas, mas assenta também em ideias, marcas, patentes, design, tecnologia e reputação. É esse património invisível que cria emprego qualificado, que atrai investimento e distingue quem inova de quem copia. Quando esse valor é roubado ou imitado, o prejuízo não fica fechado na folha de contas da empresa. É como um vírus que se espalha por toda a sociedade. Essa é a realidade que muitos consumidores de pirataria desconhecem, a palavra pode sugerir uma ação romântica contra o sistema, mas na verdade não atinge apenas os ricos e as empresas – afeta todos.

Para além do facto da contrafação não ser apenas uma cópia mal feita de um produto famoso, o ato é uma apropriação indevida do esforço alheio. Coloque-se no lugar de quem cria, imagine o investimento do seu tempo, do seu dinheiro, do seu talento e o risco que correu. Imaginou? Sente a ansiedade que passou, o trabalho que tudo lhe deu?

Quem copia aproveita esse caminho sem pagar o custo. O resultado é simples. A sua empresa perde receita, o infrator ganha vantagem indevida e o mercado torna-se menos limpo. Num ambiente destes, inovar deixa de compensar tanto. E quando inovar perde valor, todos perdem e não perdem pouco.

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Depois há um problema de perceção, como se o falso se cingisse ao luxo. É fácil pensar em malas falsas, relógios ou sapatilhas, mas o universo “do falso” vai muito além disso. Há alimentos vendidos como se fossem genuínos, sem o serem. Há peças automóveis sem controlo de qualidade. Há cosméticos e medicamentos que podem representar um risco real para as pessoas. Há conteúdos audiovisuais pirateados que retiram rendimento a quem produz cultura. Em todos estes casos, o dano não é abstrato. Tem consequências concretas na saúde, no emprego, na confiança e na justiça económica.

Acresce um ponto muitas vezes convenientemente esquecido. O falso ajuda a financiar redes criminosas organizadas. Não estamos perante um mercado improvisado de pequena escala. Em muitos casos, falamos de estruturas transnacionais, com canais digitais, logística eficiente e grande capacidade de adaptação. As redes sociais e as plataformas de comércio online abriram novas portas a este negócio e hoje, um produto contrafeito pode chegar ao consumidor com a mesma facilidade de um produto legítimo. Isso exige uma resposta mais moderna, mais firme e mais coordenada.

Com a aproximação do Mundial de Futebol de 2026 volta a intensificar-se a procura por camisolas de seleções e clubes, e com ela cresce também a venda de produtos contrafeitos. Muitos adeptos, movidos pelo entusiasmo e pelos preços mais baixos, acabam por comprar camisolas ilegais sem perceber que a contrafação não é apenas uma cópia mal feita, mas um fenómeno que alimenta redes ilícitas e prejudica todo o ecossistema desportivo – não apenas grandes marcas ou clubes, mas também trabalhadores, fornecedores e programas de formação.

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Nos últimos anos, a Federação Portuguesa de Futebol tem reforçado publicamente a importância de combater a contrafação, lembrando que a compra de produtos oficiais contribui diretamente para o desenvolvimento do futebol nacional. Com o Mundial de 2026 a ter início em breve, esta mensagem torna‑se ainda mais relevante – apoiar produtos oficiais é também apoiar o desporto que os adeptos celebram.

Também a inteligência artificial levanta novos desafios. A capacidade de imitar estilos, identidades visuais e conteúdos com enorme rapidez complica a distinção entre original e cópia. Esta mudança tecnológica pode ser útil em muitos setores, mas também aumenta o risco de abuso. Se a lei, a fiscalização e a literacia digital não acompanharem esta evolução, a fraude ganhará ainda mais terreno.

Apesar de tudo, a responsabilidade não cabe apenas ao Estado ou às autoridades. Cabe também ao consumidor. Cada compra é uma escolha económica e moral. Quando alguém compra conscientemente um falso, não está só a procurar um preço mais baixo. Está a validar um circuito que vive da fraude, da opacidade e, muitas vezes, do desprezo pela segurança de quem compra. A desculpa do “é só desta vez” ajuda a normalizar um problema sério.

Por isso, combater os crimes contra a propriedade intelectual não é proteger caprichos de grandes marcas. É defender trabalho legítimo, concorrência justa, criatividade, receita fiscal e segurança pública. É proteger quem cria contra quem parasita. E é lembrar uma verdade simples: uma economia que tolera o falso arrisca-se a tornar falso também o valor do esforço, da autoria e da inovação.

 

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