Num mercado de luxo muitas vezes dominado pela novidade e pela rotatividade de produtos, a Ownever decidiu apostar na longevidade e na preservação. O lançamento do seu Atelier de Restauro, o Ownever Repair, nasce da convicção de que uma mala de luxo não é apenas um acessório, mas um objeto que carrega histórias, memórias e experiências de vida.
Por Sandra M. Pinto
Nesta entrevista, Eliana Barros, responsável pelo projeto, explica a filosofia por detrás do atelier, desde a decisão de aceitar peças de qualquer marca até à forma como os artesãos especializados garantem a fidelidade à identidade original das malas. A Ownever revela como este projeto não só reforça a sustentabilidade e o luxo consciente, mas também consolida a sua identidade no setor premium, transformando cada restauro num verdadeiro acto de cuidado e valorização do intemporal.
O que motivou a Ownever a criar um Atelier de Restauro num setor de luxo muitas vezes mais focado em novidade do que em longevidade?
Na Ownever nunca vimos o luxo como a pressa da novidade, sempre foi mais sobre o intemporal. Para nós uma mala que nos acompanha, ou vai acompanhar, durante anos não é apenas um objeto, mas sim uma peça que carrega histórias de vidas, de viagens e de momentos únicos que lhe dão uma alma única. Uma peça destas merece ser preservada. O que nos motivou a criar o serviço Ownever Repair foi precisamente o desejo de honrar essa forma de estar. Foi quando percebemos que muitas pessoas tinham malas que não se queriam despedir, mas não encontravam quem as tratasse com o devido cuidado e saber-fazer. Acreditamos que o verdadeiro ato de luxo hoje em dia é a longevidade e o facto de conseguirmos dar às peças que amamos a oportunidade de continuarem a caminhar connosco.
Por que motivo a Ownever decidiu aceitar malas de luxo de qualquer marca e não apenas das próprias criações?
Começámos precisamente por oferecer o serviço de restauro para as nossas próprias criações, porque queríamos garantir que uma mala Ownever pudesse durar uma vida inteira: e esse sempre foi um dos pilares da marca desde o primeiro dia. No entanto, ao longo desse processo, percebemos que nos começavam a chegar pedidos de pessoas que procuravam o mesmo nível de cuidado e de saber-fazer para malas de outras marcas que adoravam. E percebemos então que o nosso compromisso com a longevidade não podia ser exclusivo das peças da Ownever. Foi por isso que decidimos abrir as portas do nosso atelier de restauro a todas as malas de luxo de todas as marcas.
De que forma o serviço Ownever Repair reforça os valores de sustentabilidade e luxo consciente da marca?
O Ownever Repair é a prova de que a sustentabilidade no luxo não se faz apenas com o que produzimos, mas com o que decidimos não descartar. Acreditamos que o objeto mais sustentável que existe é aquele que já temos e que amamos. Quando escolhemos restaurar em vez de substituir, estamos a ter um gesto de respeito profundo: pelo ambiente, pelo trabalho artesanal que deu origem à peça e pela nossa própria história com ela. Assim, o luxo consciente deixa de ser um conceito abstrato para passar a ser algo que se toca e que se sente. Ao darmos às peças a oportunidade de durarem mais décadas, estamos a combater a ideia de que o luxo é algo efémero. Para nós na Ownever, ser um ‘guardião’ destas malas é a forma mais honesta de luxo que conheço: é valorizar a alma das coisas e garantir que a beleza não tem de ser descartável.
Quais critérios são usados para selecionar os artesãos que trabalham no Atelier de Restauro, incluindo aqueles formados em casas históricas como a Hermès?
A seleção dos nossos artesãos é um processo de um rigor absoluto porque no restauro de luxo o erro não é uma opção. O critério fundamental que utilizamos para o Ownever Repair é o domínio total do saber-fazer tradicional e a capacidade de compreender a arquitetura profunda de cada peça. É por essa razão que trabalhamos com artesãos que passaram pelas grandes casas históricas em França, como a Hermès, onde a precisão é levada ao limite e onde se aprende a respeitar cada milímetro de pele. Para nós o currículo é apenas o início do caminho. O que realmente define é a sensibilidade e o respeito pela identidade original da mala. Não basta saber costurar ou reparar, pois é preciso saber replicar o ponto exato e por exemplo conhecer o comportamento de peles raras. Escolhemos pessoas que partilham desta nossa visão de sermos guardiões de um património. Por isso mesmo na Ownever Repair trabalhamos com especialistas em vários países, pois cada detalhe exige talentos diferentes.
Como é garantida a fidelidade à identidade original da mala durante processos como mudanças de cor, substituição de componentes ou reparos complexos?
Acreditamos que a identidade de uma mala é sagrada e o nosso foco principal é sempre devolver à peça aquilo que ela era originalmente. Existe sempre um estudo prévio da arquitetura da mala e dos materiais utilizados para garantir que qualquer intervenção respeita os códigos do criador original. Procuramos exatamente a mesma tonalidade de linha ou a pigmentação artesanal que mantenha a flexibilidade natural da pele ou da linha, ou da pintura. No entanto, o tempo e o desgaste por vezes impõem limites. Quando percebemos que não é tecnicamente possível devolver a originalidade total à peça, somos transparentes com o cliente. Nesses casos, trabalhamos em conjunto para encontrar soluções alternativas que preservem a beleza e a funcionalidade da mala sem comprometer a sua alma. O objetivo final é que a peça continue a ser usada e apreciada, garantindo que a intervenção técnica seja o mais invisível e respeitosa possível.
Existe alguma padronização ou formação interna para que os artesãos em diferentes países mantenham a mesma qualidade?
A qualidade é garantida através de uma gestão muito específica do talento. Mais do que uma padronização industrial, o que fazemos na Ownever Repair é uma curadoria de competências: cada artesão com quem trabalhamos é um especialista profundo num determinado tipo de técnica, material ou marca. É desta forma que fazemos a distribuição dos trabalhos. Se uma mala exige, por exemplo, um restauro estrutural complexo em pele exótica, ela é entregue ao artesão que domina essa arte em específico. Se o desafio é uma recuperação delicada de pintura, o trabalho segue para quem tem essa perícia técnica. Não acreditamos que um artesão possa ser o melhor em tudo, por isso o nosso papel é garantir que cada peça seja tratada pelas mãos mais qualificadas para aquele problema em particular. É esta especialização extrema que assegura que o nível de excelência se mantenha constante.
Quais os tipos de reparos são mais comuns e desafiadores no Atelier?
Os pedidos mais comuns que recebemos são sem dúvida as alças danificadas. É a zona de maior contacto e de mais atrito constante e por isso acaba por ser a parte da mala que cede primeiro. Além das alças, recebemos também muitas peças para restaurar os cantos que se desgastam com o uso diário, e também peças para reavivar a cor original que vai perdendo a intensidade com o tempo. Na Ownever Repair os trabalhos mais desafiadores são sem dúvida as alterações de cor, sobretudo quando se trata de mudanças muito significativas. Mudar a cor de uma mala exige uma perícia enorme porque não queremos apenas pintar a peça, mas sim transformar a sua estética mantendo a suavidade e a flexibilidade da pele original. É um processo minucioso onde o equilíbrio é fundamental para que o resultado final tenha um aspecto natural. Mas são estes desafios que nos obrigam a elevar constantemente o nosso saber-fazer e a melhorar dia após dia.
Como funciona o processo para os clientes enviarem suas malas para reparação, e há alguma restrição de localização ou tipo de material?
Todo o processo foi desenhado para ser o mais cómodo e seguro possível para o nosso cliente. Tudo começa com um contacto através do nosso website, onde o cliente preenche um formulário com um vídeo e detalhes da mala para uma avaliação técnica inicial. Assim que validamos que a peça pode ser restaurada e apresentamos o respetivo orçamento, coordenamos com o cliente a data e o local mais conveniente para fazermos uma recolha segura através de uma transportadora. A mala viaja até nós e, assim que o restauro está concluído, regressa às mãos do cliente para o local que lhe for mais conveniente. Recebemos peças de todo o mundo, por isso não existe uma restrição de localização geográfica, no entanto, existem restrições importantes a nível de materiais, especialmente em envios internacionais. Peles exóticas, como o crocodilo ou a píton, estão sujeitas a regulamentações ambientais e alfandegárias muito rigorosas que podem limitar a circulação destas peças entre países. Além destas questões legais, o nosso foco é sempre garantir a excelência. Se avaliarmos que um material específico não permite um resultado final que esteja à altura dos nossos padrões, somos muito transparentes com o cliente. O nosso compromisso é devolver valor à mala, por isso essa triagem inicial é essencial para garantir que o trabalho será impecável.
Os clientes podem acompanhar o processo de restauro ou receber relatórios sobre cada etapa do trabalho?
Fazemos questão de manter uma comunicação próxima ao longo de todo o processo e vamos sempre atualizando os nossos clientes sobre o estado do restauro. Antes de enviarmos as malas de volta, enviamos sempre registos fotográficos detalhados para que possam ver o resultado e sentir a transformação da peça ainda antes de a terem nas mãos. Acredito que o processo de ver uma mala renascer é quase tão especial como o resultado final e por isso gostávamos muito de, no futuro, avançar com um projeto onde os clientes pudessem acompanhar todo o processo e ver o passo a passo de cada intervenção técnica de forma “mais imersiva”. É algo que neste momento ainda é um sonho para nós, mas que reflete a nossa vontade de partilhar o belo deste saber-fazer artesanal. Para já, o nosso compromisso é a transparência total e garantir que o cliente se sinta parte desta viagem de preservação da sua mala.
Existe algum tipo de garantia ou acompanhamento pós-restauro para assegurar a durabilidade do serviço?
Para nós o restauro não é um ato isolado, mas sim o início de uma nova vida para a mala. Por isso, assumimos um compromisso profundo com a qualidade do trabalho que executamos e com a satisfação de quem nos confia as suas peças. Mais do que uma garantia formal, oferecemos um acompanhamento próximo: quando entregamos uma peça restaurada, partilhamos recomendações específicas de manutenção e cuidados para que o trabalho realizado tenha a maior durabilidade possível. Estamos sempre disponíveis para acompanhar cada caso, mesmo após a entrega. Se o cliente tiver alguma dúvida ou se sentir que a peça precisa de um ajuste, estamos aqui para avaliar e apoiar. O nosso objetivo é que a Ownever Repair seja uma parceria na preservação da mala, por isso queremos manter sempre canal de comunicação aberto para garantir que a peça continua a ser usada com confiança ao longo dos anos.
Qual foi o feedback mais marcante de clientes que já utilizaram o serviço Ownever Repair?
Geralmente os feedbacks que mais nos marcam não são sobre a perfeição técnica de um ponto ou de uma cor, e embora isso seja o nosso dever, o impacto emocional que o restauro tem na vida dos nossos clientes por vezes é enorme, especialmente em malas de pele com histórias muito pessoais. Recebemos frequentemente malas que pertenceram a mães ou avós, peças que estavam guardadas num armário há décadas porque se pensava que não tinham salvação. O momento mais marcante é sempre quando uma cliente nos diz que ao receber a mala de volta sentiu que recuperou uma parte da sua própria história. Lembro-me de uma situação em que restauramos uma mala que era de uma avó que já tinha partido, e embora não fosse de uma marca conhecida, era uma peça cheia de valor sentimental que estava guardada por já não ser funcional. O facto de o nosso atelier ter permitido que a neta a voltasse a usar diariamente trouxe uma felicidade enorme à nossa cliente e para nós é aí que tudo ganha sentido. Perceber que o saber-fazer artesanal permite que estas memórias saiam do armário e continuem vivas com os nossos clientes é a maior recompensa que podemos ter.
De que forma o lançamento do Atelier contribui para reforçar a identidade da marca Ownever no mercado de luxo?
O lançamento do nosso Atelier de Restauro é a expressão daquilo que defendemos na Ownever: acreditamos que o verdadeiro luxo não reside na novidade constante, mas sim no saber-fazer e na valorização do trabalho artesanal que permite a uma peça durar gerações. Ao abrirmos as portas deste serviço, reforçamos a nossa identidade como uma marca que não se limita a criar, mas que se compromete com a longevidade de todo o setor do luxo. Para nós o luxo consciente manifesta-se no respeito pela construção de cada mala e também na mestria das mãos que as restauram. Este passo consolida a nossa posição no mercado como uma casa que valoriza o que é único e a sua preservação. No fundo, o Atelier de Restauro é a prova de que para a Ownever o valor de uma peça só é pleno quando é acompanhada pela responsabilidade de a manter a uso.
Que estratégias de marketing estão sendo usadas para comunicar o serviço Ownever Repair, especialmente internacionalmente?
Até agora o boca-a-boca tem sido o nosso principal veículo de comunicação e a forma mais gratificante de vermos o serviço crescer. No mercado de luxo a confiança é o ativo mais valioso e não há nada mais poderoso do que um cliente satisfeito recomendar o nosso saber-fazer a outra pessoa. Temos visto o nosso serviço de restauro ganhar terreno internacionalmente de forma muito orgânica precisamente através destas recomendações de quem já confiou nas nossas mãos para tratar as suas peças mais queridas. A par deste crescimento natural temos feito algum trabalho de relações públicas e de comunicação orgânica nas nossas plataformas, mas sempre com o cuidado de manter a exclusividade e a proximidade que o serviço exige. Para nós o facto de o serviço se estar a expandir além fronteiras de forma tão autêntica é o melhor indicador de que o mercado estava carente de um cuidado artesanal com este nível de rigor.
Há planos de parcerias ou colaborações com outras marcas de luxo para fortalecer a credibilidade do serviço?
Para já não temos planos concretos para parcerias com outras marcas, mas a nossa postura é de total abertura a esse tipo de sinergias. Acreditamos que o ecossistema do luxo beneficia muito quando existe uma partilha de saber-fazer e de valores em torno da sustentabilidade e da longevidade.
Como é que a marca comunica aos clientes o valor emocional e artesanal do restauro, além do benefício funcional?
Para nós, um trabalho de restauro não é apenas uma reparação técnica, mas sim uma forma de honrar o passado e o futuro da mala em si. Fazemos questão de mostrar aos nossos clientes que cada intervenção é feita por artesãos especialistas que dedicam tempo e sensibilidade a cada material e isso por si só já eleva a perceção do serviço além do benefício funcional. Além disso, tentamos sempre humanizar este processo com uma comunicação aberta e muito personalizada com cada cliente. A nossa comunicação passa muito por este diálogo pessoal. No fundo queremos que os nossos clientes sintam que percebemos o valor emocional e financeiro que certas peças, por vezes avaliadas em milhares de euros, serão bem cuidadas e que ao restaurarem uma mala connosco não estão apenas a consertar um objeto, mas sim a investir na continuidade das suas próprias memórias.














