Num dos maiores festivais de música da Europa, há espaço para muito mais do que concertos. No NOS Alive, a ciência ganha palco e aproxima-se de novos públicos através de experiências interativas e conversas inesperadas. É neste contexto que o GIMM — Gulbenkian Institute for Molecular Medicine — reforça a sua presença, apostando numa estratégia que cruza investigação, cultura e entretenimento para tornar o conhecimento mais acessível e relevante.
Por Sandra M. Pinto
Em entrevista, Carmo Só, head of Communication and Public Engagement da Fundação GIMM, explica como esta presença vai além da divulgação científica, assumindo-se como uma aposta de posicionamento, proximidade e construção de confiança com a sociedade.
O que representa, do ponto de vista estratégico, a presença do GIMM no NOS Alive?
O GIMM – Gulbenkian Institute for Molecular Medicine regressa ao NOS Alive com a missão de aproximar a ciência de novos públicos, num ambiente descontraído e envolvente. Para uma instituição científica como o GIMM, estar num festival de música permite sair dos espaços tradicionais da investigação e criar pontos de contacto com públicos muito diversos, incluindo pessoas que normalmente não procuram conteúdos científicos. É uma forma de mostrar que a ciência faz parte da vida de todos e que pode ser comunicada de forma próxima, acessível e relevante, sem perder rigor. É uma união de marcas que permite dar visibilidade à excelência da ciência que se produz em Portugal, reforçando o ecossistema científico nacional e, esperamos nós, inspirar e descobrir a próxima geração de talentos na área da investigação científica.
Levar ciência a um festival de música é também uma decisão de branding. Que posicionamento pretendem reforçar?
Sim, esta é também uma decisão estratégica de branding e de consolidação da identidade do GIMM. No GIMM, os cientistas trabalham todos os dias nas perguntas mais importantes para avançarem com o conhecimento de forma aberta, próxima, curiosa e que não pode ficar apenas nesta esfera. Ao estarmos presentes no NOS Alive, reforçamos um posicionamento que pretende levar este conhecimento e investigação científica para lá das paredes do GIMM porque é aí que encontra o seu propósito final, o de servir a sociedade. O nosso objetivo é que o público reconheça o GIMM não apenas como um instituto onde se faz ciência, mas como uma instituição que cria conhecimento e o partilha ativamente.
Esta iniciativa integra uma estratégia mais ampla de aproximação da ciência ao público?
Sim. Acreditamos que comunicar ciência não deve acontecer apenas quando há uma descoberta ou uma publicação científica, mas de forma contínua, criando relações de confiança com a sociedade.
Ao longo do ano, o GIMM desenvolve várias iniciativas de comunicação de ciência, eventos públicos, atividades educativas e projetos de envolvimento com diferentes comunidades, como o GIMM Fest, a Semana da Mama, o Ciência di Noz Manera e a Noite Europeia dos Investigadores. O NOS Alive é um momento particularmente relevante porque nos permite chegar a um público muito alargado, num ambiente descontraído e propício à curiosidade. Mais do que isso, é a representação pública de uma parceria com a Everything is New, que tem uma história já significativa muito importante para nós. Aqui encontramos um promotor de cultura que aposta anualmente em jovens cientistas, levando-os ao NOS ALIVE, um dos maiores festivais de música da Europa, dando-lhes a oportunidade de iniciarem as suas carreiras científicas em Portugal.
A ciência também pode ser pensada como uma experiência de marca? Como trabalham essa dimensão no festival?
A ciência pode, e deve, ser pensada como uma experiência. No festival, não queremos apenas transmitir informação; queremos criar momentos de descoberta, conversa e surpresa. Trabalhamos esta dimensão através de ativações interativas, linguagem acessível, contacto direto com cientistas e experiências que convidam o público a participar. O objetivo é que as pessoas não passem apenas pelo stand, mas que vivam uma experiência positiva associada à ciência e ao GIMM. Essa experiência também constrói marca através de uma identidade científica próxima, credível, criativa e relevante.
Como transformam conceitos científicos complexos em experiências acessíveis e relevantes para o público?
O ponto de partida é sempre uma pergunta: porque é que isto interessa às pessoas? A partir daí, procuramos traduzir conceitos complexos em experiências simples, visuais, interativas e ligadas ao quotidiano. Não se trata de simplificar em excesso, mas de encontrar a porta de entrada certa. Muitas vezes, uma conversa de 15 minutos com um cientista, uma atividade prática ou uma pergunta bem colocada conseguem tornar um tema complexo muito mais acessível. Este ano com o conceito ‘Revealing the Real Questions’, queremos precisamente mostrar que a ciência começa com perguntas — perguntas reais, humanas e relevantes – e teremos diversas ativações que vão mostrar de forma bem divertida como os micróbios também dançam e como isso pode ser relevante para a investigação.
Que papel têm iniciativas como o ‘Speed Date a Scientist’ na humanização da ciência?
O ‘Speed Date a Scientist’ é uma forma muito eficaz de humanizar a ciência porque coloca o público frente a frente com quem faz investigação. Permite conversas curtas, informais e diretas, onde as pessoas podem fazer perguntas, partilhar curiosidades e perceber que por trás da ciência existem pessoas reais, com percursos, motivações, dúvidas e entusiasmo. Este tipo de formato ajuda a desconstruir a imagem distante ou inacessível da ciência e aproxima investigadores e sociedade de uma forma muito natural.
O que distingue esta parceria com a Everything Is New de um patrocínio tradicional?
O seu carácter continuado, consistente e com impacto na aproximação entre ciência e sociedade traduz-se não apenas numa associação pontual de marcas ou de uma presença institucional num evento, mas de uma colaboração de longo prazo, assente numa visão comum sobre o papel que a cultura e a ciência podem ter na construção de uma sociedade mais informada, curiosa e participativa.
A Everything is New tem tido um papel muito relevante ao perceber que um festival de música pode ser também uma plataforma para dar visibilidade ao conhecimento, apoiar jovens cientistas e criar novas formas de contacto entre eles e o público. Esta abertura é particularmente importante porque mostra que a ciência não deve estar limitada aos espaços tradicionais onde habitualmente é comunicada.
Seria muito positivo que mais marcas e organizações se associassem à ciência desta forma: não apenas como uma causa a apoiar, mas como uma área estratégica para o desenvolvimento do País. A ciência precisa de parceiros que ajudem a ampliar o seu alcance, a criar oportunidades e a reforçar a sua presença na sociedade.
Que valor estratégico tem esta colaboração para o GIMM e para o ecossistema científico?
Para o GIMM, esta colaboração tem um valor estratégico muito importante porque combina financiamento à investigação, visibilidade institucional e aproximação ao público. Permite-nos apoiar talento científico e, ao mesmo tempo, comunicar melhor o impacto da ciência junto da sociedade. Para o ecossistema científico, é também um exemplo de como parcerias fora do universo tradicional da ciência podem gerar valor real. Mostra que a cultura, o entretenimento e a investigação podem colaborar de forma relevante e transformar a sociedade e o Mundo em que vivemos.
De que forma a ligação entre cultura e ciência pode gerar impacto real junto da sociedade?
A cultura tem uma enorme capacidade de mobilizar pessoas, criar emoções e gerar conversas. A ciência, por sua vez, ajuda-nos a compreender o mundo, a tomar melhores decisões e a responder a grandes desafios sociais e de saúde. Quando juntamos estas duas dimensões, conseguimos criar formatos mais acessíveis, memoráveis e participativos. O impacto surge quando as pessoas saem de uma experiência com mais curiosidade, mais confiança na ciência e maior consciência da importância da investigação.
Mais de 500 mil euros já foram investidos em bolsas de investigação. Que impacto concreto tem este apoio na construção de talento científico em Portugal?
Este apoio tem um impacto muito concreto: permite financiar percursos científicos, apoiar jovens investigadores e criar condições para que mais talento possa desenvolver investigação em Portugal. Nos últimos 18 anos, esta parceria permitiu apoiar mais de 25 bolsas de investigação nas mais diversas áreas, como por exemplo cancro, doenças infeciosas, biologia do comportamento e imunologia. As bolsas são fundamentais para que cientistas em diferentes fases da carreira possam avançar com os seus projetos, adquirir experiência, integrar equipas de excelência e contribuir para novas descobertas. Investir em bolsas de investigação é investir no futuro da ciência e na capacidade do País para formar, atrair e reter talento científico.
Como medem o sucesso desta presença, para além da visibilidade?
A visibilidade é importante, mas não é o único indicador. Medimos o sucesso também pela qualidade das interações com o público, pelo envolvimento dos visitantes nas atividades, pelo número e diversidade de pessoas alcançadas, pelo interesse gerado em torno da ciência e pelo feedback recebido. Para nós, uma conversa significativa com alguém que nunca tinha contactado com investigação biomédica pode ser tão relevante como um indicador quantitativo. O sucesso mede-se também pela capacidade de criar proximidade, confiança e curiosidade.
Esta iniciativa contribui para reforçar a reputação e a confiança na ciência?
Sim. A confiança na ciência constrói-se com abertura, transparência e diálogo. Quando os cientistas falam diretamente com o público, respondem a perguntas e explicam o que fazem, cria-se uma relação mais próxima e mais credível com a investigação científica. Num contexto em que a desinformação é um desafio crescente, estas iniciativas são muito importantes para reforçar a confiança na ciência e nas instituições científicas.
Como adaptam a comunicação científica a um contexto como o NOS Alive sem perder rigor?
Adaptar a comunicação não significa perder rigor. Significa escolher a linguagem, o formato e o ponto de entrada mais adequados ao contexto. Num festival, a atenção do público é disputada por muitos estímulos, por isso temos de ser claros, visuais, interativos e diretos. Mas a base continua a ser científica. Trabalhamos sempre com investigadores e equipas de comunicação para garantir que as mensagens são acessíveis, mas rigorosas.
Que papel tem o storytelling na forma como comunicam ciência hoje?
O storytelling é essencial porque ajuda a transformar informação em significado. A ciência é feita de dados, métodos e resultados, mas também de perguntas, percursos, desafios e pessoas. Contar boas histórias sobre ciência permite mostrar não só o que descobrimos, mas porque é que isso importa e o impacto que pode ter na vida das pessoas. Ajuda a criar uma ligação emocional, a tornar temas complexos mais compreensíveis e a aproximar o público do processo científico.
Como se torna a ciência relevante num contexto altamente competitivo pela atenção do público?
Torna-se relevante quando parte das perguntas, preocupações e curiosidades das pessoas. Num contexto como o NOS Alive, não podemos esperar que o público venha à procura de ciência; temos de criar experiências que despertem a curiosidade e mostrem rapidamente porque é que aquele tema importa. A relevância nasce dessa ligação entre ciência e vida quotidiana: saúde, corpo, futuro, tecnologia, ambiente, escolhas informadas. Quando as pessoas percebem que a ciência está ligada às suas vidas, a atenção surge de forma natural.
Que papel pode a ciência desempenhar enquanto “marca” junto das novas gerações?
A ciência pode representar curiosidade, pensamento crítico, criatividade e impacto. Para as novas gerações, que vivem num mundo marcado por desafios globais e por uma enorme circulação de informação, a ciência pode ser uma referência de confiança e uma ferramenta para compreender e transformar o Mundo. Enquanto “marca”, a ciência deve ser vista como algo vivo, próximo, colaborativo e relevante — não como algo distante ou reservado a especialistas.
A ligação entre ciência, cultura e entretenimento tende a ganhar mais espaço no futuro?
Esperamos que sim. A ciência precisa de ocupar novos espaços e experimentar novas linguagens para chegar a públicos mais diversos. A cultura e o entretenimento oferecem contextos privilegiados para criar experiências de aprendizagem, diálogo e envolvimento. Esta ligação não substitui os formatos tradicionais de comunicação científica, mas complementa-os e torna a ciência mais presente na vida das pessoas.
Que próximos passos estão previstos para continuar a aproximar o GIMM do grande público?
O GIMM continuará a investir em comunicação de ciência e em iniciativas de envolvimento público que aproximem investigadores, comunidades e sociedade. Queremos continuar a criar momentos de diálogo, dentro e fora do instituto, em formatos que sejam relevantes para diferentes públicos. A presença no NOS Alive é um exemplo dessa estratégia, mas não é um momento isolado. Faz parte de uma visão mais ampla: tornar a ciência mais acessível, mais participada e mais presente na sociedade.












