Opinião de Lídia Amorim, Chief Marketing Officer na Chaviarte
Dei por mim a ir confirmar no Google a data exata da famosa Black Friday. E sim, continua lá: 28 de novembro. Oficialmente, é o dia que inaugura a temporada de compras natalícias com promoções significativas, logo após o Dia de Ação de Graças nos Estados Unidos. Na prática? Já ninguém sabe bem quando começa, nem quando acaba.
Em Portugal, a Black Friday tornou-se um “Black Month”, um “Black Season” e, em alguns casos, um “Black Out” total de coerência. As promoções começaram há semanas e a tal sexta-feira negra já não é mais do que um símbolo esbatido de um fenómeno que perdeu o seu propósito.
Recordo-me bem da primeira Black Friday em território nacional: filas à porta, multidões a empurrar carrinhos e uma espécie de euforia coletiva — o verdadeiro retrato do “momento único” que o marketing tanto idolatra. Hoje, tudo se diluiu. Já não há sexta-feira, porque todos os dias querem ser sexta.
E o problema não é o entusiasmo das marcas, é o excesso. Quando tudo é promoção, nada é promoção. Quando todos os dias há descontos, o consumidor deixa de sentir urgência. Pior: começa a desconfiar.
Enquanto consumidora, pergunto-me: se aquele preço pode baixar agora, faz sentido comprá-lo ao preço “normal”? E, afinal, o que é o preço normal? Estamos a viver um tempo em que o PVP já não é o preço de venda, é o preço de pretexto. O verdadeiro desconto deixou de ser uma vantagem e passou a ser um argumento de sobrevivência.
As marcas esqueceram-se de que a escassez é um dos maiores motores do marketing instantâneo — não apenas por criar urgência, mas por dar valor ao momento. Hoje, o que vemos é uma inflação disfarçada de desconto, uma dança de preços onde ninguém sabe quem conduz.
A Black Friday, como a conhecíamos, já não existe.
O que existe agora é um desfile de etiquetas riscadas e percentagens inflacionadas, a tentar manter viva uma tradição que perdeu o brilho — e a verdade.
No fim, fica a sensação amarga: o consumidor pode até não saber tudo de marketing, mas sabe fazer contas. E, sobretudo, sabe quando está a ser tratado como se não soubesse.












