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A Autenticidade dos Valores das Marcas e o Futuro Sustentável do Marketing

NotíciasOpinião
Marketeer
10/01/2024
10:06
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Beatriz Caetano
10/01/2024
10:06
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Por Susana Costa e Silva, docente na Católica Porto Business School e directora do Mestrado em Gestão

O papel das marcas na promoção da sustentabilidade e o modo como os seus valores impactam as decisões dos consumidores são questões que vêm conhecendo uma importância acrescida para as empresas. Reconhece-se cada vez mais que os seus valores sociais, económicos e ambientais estão a receber uma atenção especial, não apenas pelos seus clientes, mas por outros players relevantes, como os trabalhadores, os distribuidores, os accionistas, a media, e a sociedade civil, de uma forma geral. Mas, viver os valores que defendem pode ser um grande desafio para as empresas. O prémio, pode, no entanto, ser crucial para a credibilidade da marca e fazer a diferença no “momento da verdade”. Algumas empresas tomaram por isso a decisão de alinhar as suas operações com seus valores declarados, implementando práticas sustentáveis nas suas cadeias de fornecimento, reduzindo a sua pegada de carbono, apoiando causas sociais ou adotando práticas comerciais éticas. Outras, viram-se na necessidade de o fazer por imposição dos organismos que, tutelando a sua actividade, assim o exigem.

Em qualquer um dos casos, porém, é necessário ter presente que a defesa de valores – sobretudo da sustentabilidade – expõe a organização ao rigor e ao escrutínio dos diferentes públicos da marca, bem como dos stakeholders que contribuem para o sucesso das suas operações. Há vários casos de experiências malsucedidas a este respeito. Um exemplo clássico é o da Volkswagen que, durante anos, divulgou e promoveu a sua imagem como uma fabricante de carros ambientalmente consciente, com veículos ecologicamente correctos e de baixa emissão. No entanto, em 2015, foi envolvida num escândalo de emissões de poluentes, tendo-se descoberto que a empresa instalava dispositivos de manipulação de software nos seus veículos para enganar os testes de emissões. Este caso revelou uma discrepância significativa entre a imagem que a empresa promovia e as suas práticas reais, o que resultou numa perda substancial de confiança do consumidor e impacto negativo na sua reputação: a empresa proclamava certos valores publicamente, mas agia de forma diferente nos bastidores.

O mesmo acontece com algumas marcas que por razões estratégicas julgam por bem associar-se a causas tendo em vista aumentar o seu capital reputacional no mercado, mas que acabam a tomar ações de gestão que revelam o desalinhamento de valores e um fraco ou nulo comprometimento com a causa. Um dos casos mais conhecidos envolveu a KFC nos EUA que, a exemplo de outras marcas americanas em busca de uma parceria ganhadora com uma causa social, se associou à “pink ribbon”, uma organização sem fins lucrativos que procura chamar a atenção para a prevenção e tratamento do cancro da mama. Na sua promoção “Buckets for the Cure” (“Baldes para a Cura”), parte das vendas seria doada para o combate ao cancro da mama. Desnecessário será dizer que a promoção foi mal recebida e criticada pelo facto de que alguns produtos da KFC serem considerados menos saudáveis, o que contradiz a prevenção de doenças como o cancro. Parecia, portanto, haver uma preocupação de comunicação mais do que um genuíno compromisso com a causa.

Esse tipo de situação, onde uma empresa tenta associar-se a uma causa social ou ambiental para promover sua imagem sem realmente alinhar suas práticas com esses valores, é frequentemente chamado de “washing”. “Pink washing” refere-se especificamente a estratégias de marketing que exploram causas ligadas ao cancro da mama sem necessariamente apoiar a causa de modo autêntico. Temos igualmente campanhas de tipo “rainbow washing”, “blue washing” e “green washing” que são usados quando empresas tentam capitalizar a favor de questões LGBTQ+, saúde mental e sustentabilidade, respetivamente, sem um real compromisso ou ação consistente de apoio. Essas estratégias podem ser percebidas como oportunismo e levam à desconfiança dos consumidores atuais que estão cada vez mais conscientes e informados, muitas vezes preferindo pagar mais por marcas que se alinham com seus próprios valores.

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Faz então sentido que as empresas que demonstram um compromisso genuíno com os valores propalados, possam usar isso como uma vantagem competitiva. Se embarcam em iniciativas ambientais e sociais, podem e devem mostrá-lo, evidenciando de forma transparente os seus esforços por meio de campanhas, certificações ou rótulos que os consumidores reconhecem e confiam. Estes valores ou causas, que podem perfeitamente ir além de questões de sustentabilidade, vão constituir cada vez mais um factor de diferenciação entre as diferentes opções. E se o preço deixar de ser o fator principal da tomada de decisão, então benefícios de longo prazo de produtos ou serviços sustentáveis, e aos quais se associam valores positivos, passam a ganhar relevância na estratégia das empresas. Se a isso se somar uma estratégia consistente em que, por exemplo, à sustentabilidade, se somam fatores como a qualidade, a durabilidade, a reparabilidade e a consequente redução do impacto ambiental, o consumidor pode até aceitar a justificativa de um preço mais alto.

As decisões dos consumidores baseadas nos seus próprios valores estão a tornar-se cada vez mais correntes, especialmente entre os segmentos mais jovens. À medida que a consciencialização cresce e os valores evoluem, as empresas que abraçam autenticamente causas estarão em melhor posição para conquistar a confiança e a fidelidade do consumidor, destacando-se assim num mercado competitivo.




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