A arte de viver com as estações do ano | Mas, afinal, ainda existem estações do ano?

Lourenço de Azevedo | Especialista em hábitos de saúde e longevidade 

Esta é a pergunta que recebo com mais frequência. A resposta é sim, ainda existem quatro estações no ano, apesar de aparentemente parecer que existem apenas duas. 

No entanto, compreendo por que é que esta pergunta me é feita com tanta frequência. Talvez porque nas empresas, nas escolas, nos automóveis, nos transportes públicos, nas grandes superfícies, ou nos nossos lares, é possível manter durante todo o ano a mesma temperatura ambiente com uma precisão suíça. O que não permite sentir as variações de temperatura mais subtis ao longo do ano. Assim, só são notórias estas diferenças quando são extremas – quando está muito frio ou muito calor. Apesar da luz solar variar durante todo o ano, hoje é possível criar um sol artificial onde quer que estejamos, consoante as nossas necessidades. Neste processo habituamos o nosso sistema nervoso a uma existência que tem muito pouca variabilidade em termos de luminosidade. Se há cerca de 40 anos só era possível comer laranjas em determinados períodos do ano, hoje é possível – salvo algumas excepções – comprar cerejas ou morangos no Outono, uvas na Primavera ou vegetais originários de outros continentes, sem ser necessário esperar pela estação correspondente. Se no hipermercado mais próximo de si procurar descobrir a estação do ano em que está, pela disponibilidade e variedade de “frutas e vegetais sazonais” aí existentes, acredito que será um desafio considerável. Ainda se lembra da última vez que colheu uma fruta directamente da árvore?

Esta constância, que poderá habitar nos nossos dias e que se destina a fornecer mais conforto, criar mais produtividade ou permitir ter, sempre disponíveis, a variedade de alimentos que desejamos, mina a nossa capacidade orgânica de observar as pequenas mudanças graduais e subtis, que nos indicam que as estações estão a mudar. Cria-se assim uma bolha de protecção que nos impede de sentir a impermanência que se passa fora dela.

Para nós, adultos, este cultivo da permanência destina-se a trazer-nos conforto, previsibilidade e segurança. No entanto, esta constância enfraquece-nos também dia a dia. É na diversidade que o sistema nervoso humano ganha resiliência, à medida que se adapta aos vários desafios físicos e emocionais que a natureza lhe propõe.

E as crianças, tal como os adultos, não são excepção

Na Medicina Chinesa existem cinco factores climatéricos: vento, calor, humidade, secura e frio. É o contacto com estes elementos, ao ritmo das estações, que encerra o poder de fortalecer o corpo e tornar as emoções mais estáveis. Ao evitar o calor no Verão, utilizando o ar condicionado, está a privar o corpo de transpirar. Esta é uma das reacções fisiológicas naturais que permitem ao corpo baixar a sua temperatura no Verão. Com o tempo e a utilização massiva destes dispositivos de refrigeração, o organismo perde a capacidade de manter uma temperatura estável por si mesmo. Recorre-se assim a água fria, sumos e bebidas frescas ou mesmo aos gelados. Estas soluções, paradoxalmente, criam ainda mais calor interno em quem os consome, criando um ciclo vicioso infernal nos dias mais quentes. Na Suécia existe a tradição de os bebés, a partir das duas semanas, dormirem a sesta ao ar livre com temperaturas abaixo de zero. O mais comum são os -10° C, mas facilmente as crianças são expostas a temperaturas mais baixas. As sestas duram entre 30 a 90 minutos e podem acontecer uma a duas vezes por dia.

A sabedoria tradicional ensina-nos que não é evitando um factor climatérico ou uma estação que estaremos mais protegidos e seremos mais saudáveis, mas sim permitir que o corpo se exponha aos factores considerados agressivos e deixar que este natural e gradualmente se adapte e se fortaleça. Viver em harmonia com as estações do ano não se limita, no entanto, segundo a sabedoria oriental, aos factores climatéricos. Para além do contacto com o ar livre adicionam-se mais dois: a alimentação com ingredientes de qualidade e o repouso. Estes crê-se serem a chave para a saúde do adulto e da criança e que podem mudar radicalmente o estado físico e emocional de ambos, quando são integrados no dia-a-dia familiar.

A alimentação sazonal

Para além de uma dieta, que não inclui alimentos processados, esta tem também uma proveniência de cultivo baseado na agricultura biológica. É tempo de voltar aos mercados e observar a fruta, leguminosas e vegetais da época. Estes alimentos, tal como o nome indica, auxiliam-nos a estar adaptados ao momento presente. Se a criança tem demasiado frio no Inverno ou no Outono, uma das razões poderá ser a utilização de alimentos que correspondem às estações mais quentes. Frutas tropicais, como as bananas, abacates, mangas, papaias, ananases, são frutas que arrefecem o corpo, por isso nascem no seu estado natural em países quentes. Consumi-las, num clima frio, será para o corpo como estar no país da sua proveniência e por isso arrefece internamente. O seu consumo a longo prazo pode dar origem a constipações e gripes recorrentes e desnecessárias. Voltar ao mercado ou a lojas que seguem os princípios de comercialização de produtos da época, para além de ser uma actividade em família, desenvolve na criança a noção de uma alimentação sazonal, que tem por detrás pessoas e processos de cultivo naturais e desmonta a crença de que os alimentos crescem nas prateleiras dos hipermercados.

Educar com as estações

É hoje um dado assumido que, na maioria das instituições prisionais, os reclusos beneficiam de mais tempo ao ar livre e luz solar do que as crianças têm acesso na maioria das instituições de ensino. Este contacto revela-se cada vez mais importante pela capacidade que tem de relaxar o sistema nervoso, fortalecer o sistema imunitário e como uma alternativa saudável de desconexão do virtual. Todos nós temos a experiência na primeira pessoa, ou por observação nas crianças, do efeito que pode produzir um dia de praia, de campo ou de caminhada na floresta. Educar pela natureza requer ultrapassar a resistência em sair da área de conforto. Nesta resistência estão os medos de que as diferenças de temperaturas podem adoecer ou incapacitar, que o contacto com a natureza possa reduzir tempo de estudo “útil”, que trazer sujidade e quebrar a assepsia que se pensa proteger-nos de todos os males, que uma alimentação mais natural, baseada exclusivamente em produtos sazonais, seja insuficiente e que isso resulte em carências a nível nutricional ou, ainda, o desafio que pode ser para os pais desconectar e desligar após o jantar, e que como esta incapacidade vai contaminar a criança com agitação e dificuldade em adormecer, que se reflecte em distúrbios comportamentais e défice de atenção no dia seguinte ou de forma crónica, se esta exposição for continuada.

Para isso não basta criar as condições para que as crianças possam usufruir desta relação próxima com a natureza, que permite reconhecer dentro e fora delas as estações do ano. Inclui também a proposta para cada um de nós, que se assume como educador, de dar o exemplo e o primeiro passo – para que possa conduzir este processo em segurança.

Passa por aceitar o convite de incluir na sua vida mais tempo na natureza, uma alimentação sazonal e sustentável e um respeito sagrado pelos seus próprios ritmos. Para que seja possível inspirar aqueles que estão ao seu cargo a uma viagem que, no futuro, permita que sejam também estas as prioridades e valores que vão desejar viver.

Repouso

Durante o ano a quantidade de luz varia consoante o ciclo solar e esta variação induz a que nós, como seres humanos – tal como os animais – descansemos mais ou menos consoante as estações. O sono é o anti-inflamatório mais barato do mercado. Dormir as horas necessárias aumenta os níveis de atenção e imunidade da criança. Este descanso deverá ser mais no Outono e Inverno e moderado na Primavera e Verão. Depois da invenção da luz eléctrica o ser humano reduziu consideravelmente as suas horas de sono. A invenção das luzes de tecnologia LED veio reduzir ainda mais este período de descanso. Por possuírem uma frequência luminosa chamada “luz azul”, vão dar a informação ao sistema nervoso humano que ainda é dia e a melatonina, a hormona que induz a sensação de sono, não é segregada. Por fim, quando as luzes se apagam definitivamente, esta hormona poderá demorar até duas horas a ser segregada. Se a(s) sua(s) criança(s) têm uma energia imparável à noite, experimente depois do jantar desligar todas as luzes que têm esta frequência. Estão incluídos computadores, tablets, smartphones e televisões. Se mesmo assim prefere luzes com a tecnologia LED é recomendado que sejam utilizadas luzes com uma tonalidade mais amarela. Como actividade familiar experimente limitar a utilização destes aparelhos, reduzindo também a luz ambiente, não só para a criança, mas para toda a família. Poderá ser surpreendente a hora a que o João Pestana lhe bate à porta nessa noite.

Artigo publicado na revista Kids Marketeer nº3 de Março de 2018.

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