8 mitos acerca das birras e o que deveríamos saber

Por Clementina Almeida, psicóloga clínica especialista em bebés e fundadora da ForBabiesBrain by Clementina

As birras. Todas as crianças terão pelo menos uma, em algum momento da sua vida. Quase todos os pais irão odiá-las. E na hora H, no meio de uma birra, todos os pais, no meio de tanta desinformação, precisam de estar munidos com informações científicas e esclarecedoras.

No meu dia-a-dia na clínica, a atender muitos pais de crianças pequenas, posso garantir que todos eles chegam à consulta a acreditar pelo menos num mito acerca das birras. Esclarecer os equívocos sobre as birras ajuda muito a compreender como pode ajudar o seu filho da melhor forma neste breve, mas difícil, estádio de desenvolvimento emocional.

O cérebro dos nossos filhos ainda é como um trabalho em construção e por isso eles são facilmente abalroados por emoções avassaladoras que não conseguem controlar. Isto porque a parte do cérebro que os ajuda a regular as emoções, a acalmar-se, a tomar boas decisões, a considerar os sentimentos e a perspectiva dos outros, ainda não está totalmente desenvolvida.

Então o que se estará a passar dentro do cérebro em construção do seu filho quando ele desata numa birra? Em primeiro lugar, é importante reter que o seu filho, ao fazer uma birra, está num momento de desregulação neuropsicológica, em que precisa mais do que nunca da sua ajuda.

Vejamos: uma birra envolve, pelo menos, duas partes do cérebro: a amígdala, que é a área responsável pelo processamento das emoções como medo ou raiva, e o hipotálamo, que controla funções inconscientes, como frequência cardíaca ou temperatura. Pense na amígdala como o detector de perigo, ou um detector de fumo, e no hipotálamo como alguém que vai decidir se deita água ou gasolina na fogueira – com adrenalina e cortisol.

Quando o seu filho faz uma birra porque não quer, por exemplo, o copo verde mas sim o azul, ele não está a dificultar-lhe a vida. Simplesmente o seu cérebro detectou um perigo e actuou. Tal como nós quando nos sentimos em perigo, por exemplo, ao atravessar a rua sem nos apercebermos que estava um carro demasiado próximo, o seu filho vai sentir o coração a bater muito mais rápido, as palmas das mãos a suar e “piquinhos” na face, como se tivesse sido abalroado por um “tractor” de emoções fortes, com a agravante de não estar a entender nada do que está a acontecer.

Por mais que queira trazer a razão para a situação, o seu filho vai estar incapaz de o ouvir e menos ainda de racionalizar ou compreender, o que só irá aumentar a sua raiva e vontade de lhe bater (já que a sua capacidade de controlar o impulso é bastante limitada)!

Felizmente, os nossos filhos têm-nos a nós, com o nosso córtex pré-frontal desenvolvido, para servir de cérebro externo e ajudá-los a regular as suas emoções, deitando “água para a fogueira”.

Aqui estão 8 dos principais mitos sobre as birras, explicados:

Mito #1- As birras indicam problemas comportamentais nos nossos filhos

Facto – As birras fazem parte do desenvolvimento porque decorrem da incapacidade do cérebro regular as suas emoções, por ter as áreas responsáveis por essas funções ainda por maturar ou a iniciar o processo de maturação. É mais preocupante, sob o ponto de vista do desenvolvimento, o facto de uma criança não fazer birras do que uma criança fazer birras.

Mito #2 – Eu sou um(a) péssimo(a) pai/mãe se os meus filhos estão constantemente a fazer birras

Facto – O comportamento dos nossos filhos não é culpa nossa. Nós não controlamos o comportamento deles. O nosso papel enquanto pais é fornecer-lhes o apoio e a conexão necessários, ao validar os seus sentimentos e emoções. O resto é com eles. Embora uma parentalidade gentil e um maior conhecimento acerca do desenvolvimento cerebral dos mais pequeninos possa ajudar a reduzir as birras ao mínimo, outros factores, como o nível de desenvolvimento, o temperamento da criança ou o nível de frustração que ela encontra, também terão a sua influência. Não importa o quão excelente mãe/pai seja: a maioria das crianças vai fazer uma birra em algum momento.

Mito #3 – Durante uma birra, preciso fazer com que o meu filho pare de chorar

Facto – O choro é uma forma das crianças comunicarem o seu desconforto com alguma situação ou acontecimento, por isso não devemos fazer a criança parar de chorar. É mais saudável exprimir as suas emoções do que aprender a calar o choro porque é mau ou não é aceite. Assim como uma criança chora para ser alimentada ou mudar de fralda, as crianças choram e fazem birras para comunicarem outras necessidades a serem atendidas pelos pais.

Mito #4 – Eu devo castigar meu filho quando ele faz uma birra

Facto – As crianças precisam de tempo para desenvolver as competências de regulação das suas emoções. É como um músculo que necessita de exercitar para se desenvolver, sendo que o castigo não vai em nada ajudar este desenvolvimento. Quando punimos, as crianças não conseguem ver as nossas intenções. O que elas sentem é a vergonha e o medo da nossa raiva. Sentem-se rejeitadas e incompreendidas, passando a pensar mal de si próprios. Em vez disso, o que podemos fazer é aceitar que as birras fazem parte do desenvolvimento da criança. Aceitando e vendo as birras por uma nova lente, podemos controlar as nossas próprias emoções e usar esses momentos para nos conectarmos com os nossos filhos.

Mito #5 – O meu filho faz birras deliberadamente para me envergonhar em público

Facto – Ainda não conheci nenhuma criança que acordasse a pensar ”o que é que eu posso fazer hoje para tornar a vida da minha mãe/pai um inferno?!” . As crianças realmente não pensam assim! Todo o seu comportamento (do melhor ao pior) é uma expressão das suas próprias necessidades e emoções, não tendo nada de pessoal (embora às vezes possa parecer que sim). É muito útil ver a birra como uma fase temporária do desenvolvimento e uma tentativa de comunicação da criança.

Mito #6 – Os meus filhos só fazem birras quando estão comigo, com os outros parecem uns anjinhos

Facto – Por muito que possa ser difícil de acreditar, isso é um elogio! Isso quer dizer que o seu filho se sente mais seguro emocionalmente consigo e sabe que mesmo que lhe mostra as suas “partes mais negras” irá sempre encontrar o seu amor incondicional. E por isso sentem que consigo é seguro explodir, o que se torna muito comum depois de um dia inteiro a obedecer na creche.

Mito #7 – A criança que faz birra é “manipuladora” e gosta de ser o centro das atenções

Facto – Os mais pequeninos, apesar de parecerem, não são adultos em miniatura e são incapazes de ter os pensamentos manipuladores semelhantes aos dos adultos com o propósito de alcançar fins desagradáveis. Seria preciso já ter desenvolvido a parte do cérebro que lhes permite planear, algo que só começa a maturar por volta dos 4-5 anos de idade. As crianças pequenas têm ainda muita dificuldade em exprimir por palavras as suas necessidades, o que as faz muitas vezes agir em voz alta para fazer com que os pais atendam às suas necessidades. Quanto a ser o centro das atenções, o desenvolvimento também tem algo a dizer porque inúmeras pesquisas ao longo dos anos têm vindo a demonstrar que os bebés e as crianças pequenas precisam da atenção de um adulto responsivo, tanto quanto precisam de comida e água.

Mito #8 – A melhor forma de lidar com a birra é ignorá-la

Facto – Como já deve ter percebido, o momento da birra para os mais pequenos é o momento em que mais precisam de nós. Ignorar esse momento é semelhante a um amigo seu estar a chorar por alguma razão e receber de nós um “quando te acalmares vem falar comigo!”, que para além de uma provocar sensação de abandono não valida as emoções que a criança está a sentir nem a ajuda a conectar-se consigo para aprender a regular-se em situações futuras.

Passar bastante tempo com o seu filho permitirá que entenda o seu temperamento e confie nos seus instintos para tomar as melhores decisões no que a ele dizem respeito.

Para finalizar, lembre-se que algumas das características que gostamos de ver em adultos, como assertividade, resiliência e determinação, têm a sua raiz nestas famosas birras. E não se esqueça de algo muito importante: antes de tentar acalmar o seu filho, acalme-se a si. Afinal, você é o adulto!

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