Opinião de João Reis, licenciado em Gestão, MBA, estudante doutoramento Marketing e Estratégia U. Aveiro/U. Minho/U. Beira Interior
Estava no Stade de France quando o Éder entrou em campo. Levantei-me e gritei que ia marcar. Dito e feito. O nervosismo acumulado por mais de 90 minutos resultou numa explosão de sensações, saltos e abraços entre compatriotas desconhecidos. Naquela noite, um país inteiro acreditou na mesma coisa ao mesmo tempo, não importava se jogássemos bem ou mal. Conseguiremos repetir esse feito e vencer, como força coletiva, em 2030?
Estamos a viver um conflito entre o passado, o presente e o futuro. Os portugueses dividem-se entre os fãs incondicionais da nossa estrela e os que defendem os novos talentos. Também tivemos esse problema em 2004, quando só após a derrota no primeiro jogo houve coragem para mudar o onze inicial. Nessa altura, as ruas acolheram a sugestão de uma bandeira em cada casa. Capitalizámos uma das nossas forças – saber receber. Não ganhámos a competição, mas a confiança de que poderíamos lá chegar cresceu.
Jorge Jesus disse que temos orgulho de ser portugueses. Se é verdade que dividimos o mundo com Espanha, por várias ocasiões descansámos à sombra da bananeira. A arrogância nunca nos aproveitou. O nosso legado positivo resulta do respeito pelas culturas com que nos cruzámos e das relações de amizade que mantemos até hoje.
Estamos disponíveis para enfrentar o desconhecido, como o fizemos tantas vezes no mar. Não temos medo de nos denominar “especiais” e conseguimos colocar estádios inteiros a gritar “Sim!”, mas, por vezes, perdemo-nos no individualismo. Perante a dificuldade, frequentemente excedemos as expectativas porque sabemos unir-nos em torno de um objetivo comum. O que conta numa competição global é o compromisso de grupo.
Quando perdemos, refilamos. Há mais de 11 milhões de treinadores de bancada portugueses espalhados pelo mundo. Segundo Merino, o médio espanhol que marcou o golo da nossa derrota, esse lance nasceu do aproveitamento do protesto de um jogador português. Se gastássemos tanto esforço a tentar melhorar quanto a discutir os erros, evoluiríamos muito mais rapidamente. A confiança faz-se na vitória e na derrota.
Precisamos de evitar as nossas fraquezas — a arrogância, o individualismo e o bota-abaixismo — e alavancar as nossas forças: o respeito, o compromisso e a confiança. Não vamos, de repente, criar um “haka” à portuguesa, mas também não podemos cantar o fado antes de começar a partida. Temos a oportunidade de criar o nosso ritual, algo que nos una para lá dos quatro versos que nos acompanharam em 2016.
Por isso, parte daqui uma sugestão: antes de cada jogo, dez segundos de silêncio como sinal de respeito por quem abriu caminho antes de nós, seguido de um abraço entre nós, porque é assim que celebramos as grandes vitórias e enfrentamos as derrotas, e concluímos com um “Sim!” coletivo, símbolo da nossa confiança para enfrentar o adversário. E a pedra de toque: este ritual deve acontecer no início e no final de cada jogo, independentemente do resultado. É nas derrotas que mais testamos o respeito, o compromisso e a confiança.
Esta opinião não é sobre futebol. Nos negócios e nos diferentes setores, precisamos de abandonar a arrogância, o individualismo e o bota-abaixismo. As empresas devem evitar acomodar-se à liderança e deixar de inovar. Os empresários e gestores precisam de pensar mais em escala num mercado cada vez mais global. E, como comunidade, devemos eliminar o bota-abaixismo. Temos muitos comentadores, mas uma das taxas de participação associativa mais baixas da Europa. O pior outsourcing que podemos fazer é o da nossa responsabilidade cívica.
As grandes marcas vivem de rituais. As grandes equipas vivem de cultura. Os grandes países vivem da capacidade de transformar talento individual em confiança coletiva. Talvez seja esse o verdadeiro jogo que Portugal tem de ganhar até 2030.












